Domingo, 6 de Maio de 2012

 

Viajar de Díli para a Ilha de Ataúro, deveria ter entrada directa no top 5 das coisas mais radicais que uma pessoa pode fazer em toda a sua vida. Num ferry-boat, o Nakroma, onde viaja tudo [galinhas, porcos, pessoas aos molhos que se apinham e empurram como se o raio do barco fosse fugir a qualquer momento, sacas de arroz e legumes, camiões e motas no porão, vale tudo, mas tudo mesmo], a viagem dura cerca de duas horas [duas radicais horas onde sensivelmente um terço da tribulação começa a sofrer de enjoos a meio caminho, o outro terço canta e berra entusiasticamente ao som de músicas indonésias que passam na televisão e o restante come e fuma e enfia palmadas nas galinhas sentadas no banco do lado para ver se as bichas se acalmam]. Mas compensa.

 

Compensa porque Ataúro é linda. E tirando o sábado e domingo, dias de maior agitação, durante o resto da semana a ilha mergulha no silêncio e nas rotinas dos dias que passam perfeitamente alheada da meia dúzia de estrangeiros que por lá vagueiam.

 

No mar de águas cristalinas [como eu nunca vi] passeiam-se golfinhos, peixes de todas as cores [acho que estou a ficar viciada em snorkeling] e, gente, estrelas-do-mar lindas de morrer. Mas assim aos milhares, mesmo à beira mar, mesmo ali junto aos nossos pés. Apesar da pobreza [que não é nem pode ser sinónimo de falta de limpeza, senhores dirigentes de Timor – Leste*], apesar da falta de saneamento, apesar da falta de infra-estruturas, apesar da falta de água potável, apesar da história que envolve a ilha, Ataúro é um sítio lindo e ficará para sempre marcada como o primeiro lugar do mundo onde vi estrelas-do-mar da cor do céu.

 

* Pelo amor de Deus gente, vocês têm que tomar conta do lixo que fazem. É inadmissível que as vossas praias e o vosso mar continuem pejados do mais variado lixo. Não é bonito, e Timor é lindo demais para não começar a resolver imediatamente esse problema.



Maria | comentar

Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Vou de férias. Nada de Internet ou telefones. Volto dia 18. Até lá. 




Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
Afinal é uma menina, é verdade. A minha primeira sobrinha, afilhada e herdeira vai nascer lá para Agosto. Acontece que a checa [mãe da minha princesa e namorada do meu irmão] achava que podia escolher o nome da criança sem me dar cavaco. A checa ainda está para perceber em que família se veio meter, como é óbvio. Conversa para aqui, conversa para ali [abençoado FB] lá fiquei a saber pelo meu irmão que se estava tudo a preparar para chamar Isabel [mais o último nome da checa que não consigo pronunciar] mais o nosso [meu e do meu irmão] apelido. Passei-me. Não que Isabel seja um nome feio, que não é, mas a primeira criança a nascer na nossa família e ainda para mais sendo menina teria que forçosamente ter o nome [neste caso o segundo nome porque o primeiro é um bocadinho esquisito] da minha avó, a saber: Mariana.


Armou-se a confusão naquele mural de FB. Verdade seja dita, da chantagem emocional à psicológica passando pelo movimento de guerrilha [com a ajuda dos meus primos que estão no Congo] fizemos de tudo. Dois dias depois fiquei a saber que afinal a checa tinha aceite que a criança se chamasse Isabel Mariana  [mais o último nome da checa que não consigo pronunciar] mais o nosso [meu e do meu irmão] apelido.


Pelo amor de Deus, pessoas, eu tenho um parasita alojado dentro de mim e não me posso enervar com estas merdas. Isabel Mariana, mas onde é que isto já se viu, dois nomes é coisa que já nem se usa. Isabel Mariana [eu nem vos digo o que é que isto me faz lembrar]. Pego no telefone e ligo para mãe querida [aleluia pela primeira vez estivemos de acordo] que não se admitia uma coisa destas e que a criança já vai nascer traumatizada e que a checa lá porque vai ser mãe não pode decidir tudo [mãe querida ficou de tentar convencer a checa]. Ao meu irmão só lhe disse: olha amor lindo, sabes, no dia em que casares com a checa o padre vai perguntar se existe alguém dentro da igreja que se oponha ao casamento. Queres tentar a sorte, queres?


Se alguma vez a minha primeira sobrinha se vai chamar Isabel Mariana. Ou bem que é Isabel [vá que eu não quero mal à criança] ou bem que é Mariana. Rais me parta se a miúda não se vai chamar Mariana. Dou cabo da checa.



Quinta-feira, 26 de Abril de 2012

Sorte malvada, pá. Já não me bastava ter vindo de Dili picada dos pés até às mamas, ainda trouxe de lá um parasita alojado nos intestinos. A minha vida neste momento divide-se entre a cama e a casa de banho. Uma animação, portanto.




Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

É tão fácil, minha gente, falar da miséria alheia quando sempre se teve a barriga cheia. É tão fácil ser-se pelos pobrezinhos porque é tão bem, sei lá [conheço gente que tem pobrezinhos de estimação só para exibir junto dos amigos a putativa caridade que faz]. Sorte marreca.

 

As pessoas, antes de se afirmarem disto ou daquilo, primeiro deviam ter vergonha na cara. Ou decoro. No mínimo decoro. Porque isto de se vir para aqui falar do que se não sabe não está com nada. Eu sei o que é ser pobre. Ponto. Sei o que é passar por privações e dificuldades várias. Foi a vida que levei e me forjou. Nada a lamentar. Sei o que é repartir dentro da pobreza e conheço bem a dureza da espera quando não se tem e se precisa. E mais não adianto porque da minha vida só se sabe o que eu quero.

 

Por isso poupem-me, caralho, poupem-me ao discurso do somos todos iguais e temos que ter todos direito ao mesmo. Porque a partir de uma condição básica inegável a quem quer que seja, as pessoas distinguem pelo que fazem e pelo que são. Ponto. E não, eu não sou pelo igualitarismo. Eu sou pelo mérito e pelo reconhecimento. Sem paternalismos de maior, sff.

 

Olha que foda, já não me bastava ter levado meia vida a ser olhada de lado porque não vestia nas lojas da moda, porque não tinha os tiques da maioria nem falava com a boca de lado [graças a Deus nunca tive problemas de dicção] e, horror dos horrores, vivia num Bairro Social,  para vir agora aturar gente que praticamente ainda nem largou os cueiros mais o seu discurso do reviralho caviar. Era só o que me faltava.




Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Apesar da enorme hospitalidade com que os amigos me recebem sempre em Dili, poupem-me a novas deslocações à capital. Ninguém merece 16 picadas de mosquito de uma assentada [pareço um ET, carago] e ninguém aguenta esse calor do demo. Eu sou uma pessoa das montanhas. Let's Keep it that way.




Segunda-feira, 16 de Abril de 2012
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Hoje, às 7 horas da manhã, Timor começou a votar. Esta madrugada já se saberá quem irá ser o novo Presidente da República. Experiência do caneco esta de estar aqui. Perdida de cansaço, com umas olheiras de meter medo, é verdade, morta por conseguir dormir dois dias seguidos, mas tremendamente grata por poder participar nestas eleições.




Quarta-feira, 28 de Março de 2012

O gosto musical do meu vizinho oscila entre a música de corno e o género dor de cotovelo. Ate aí tudo bem. Mau mesmo é quando o tipo canta. Jesus. Parece uma gata prenha.




Terça-feira, 27 de Março de 2012

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Tenho por este homem uma profunda admiração. Não teve uma vida perfeita, é um facto. Não as há. Mas foi a vida que levou e eu gosto dele. Muito. Vale a pena conhecê-la[o].




Há pessoas que podem arreganhar os dentes tantas vezes quantas aquelas que quiserem. Se eu não vou com a cara delas, fodeu-se. É uma cena de pele. Não tem explicação. 




Sexta-feira, 23 de Março de 2012

 

Se bem o conheço, em dois segundos conseguiu arrancar a madrinha do sofá. Adoro este ar de "já levantavas o cu daí, não".




Quinta-feira, 22 de Março de 2012

Há pessoas que justificam o despreendimento que lhes tenho com uma putativa soberba da minha parte. Tudo bem. Ou seja, enquanto eu estive em Portugal raramente davam notícias, enquanto eu vivi do outro lado da rua passavam-se meses que nem um convite para um café, enquanto eu comia o pão que o diabo amassou nunca se lembraram de pegar no telefone e “olha cá precisas de alguma coisa, ou passa cá por casa, ou estamos aqui para ajudar no que for preciso”, nada. E agora, foda-se, são umas saudades loucas, um nunca mais disseste nada, porque agora trabalhas para a ONU e pensas que és importante, como se esta merda de ser voluntária num país de terceiro mundo [porque eu amo de paixão Timor-Leste mas, meus caros, as coisas são como são] me tivesse subido à cabeça. Olha que caralho. Querem o quê. Azeitoninhas.

 

Mas por que carga de água haveria eu de ter saudades ou de me dar com pessoas que se estiveram positivamente nas tintas para mim quando vivia no meu país. Gente que assobiou para o lado quando precisei, gente que passava à minha porta e nem à campainha tocava e agora chegam-se aqui à minha beira como se fossemos todos muito amigos e quando telefonam é um mete nojo de “tenho tantas saudades tuas, minha querida”. Oh pá, ide mas é apanhar na bunda e larguem-me. Saudades, daquelas que me moem, só do meu gato* e está tudo dito, não. Ah e para vossa informação fazem-me mais falta as pessoas cujos blogs acompanhava regularmente e hoje não consigo do que vocês. Aliás, vocês não me fazem ponta de corno de falta. Não fizeram na altura e não fazem agora. Got it. Está a desandar. 

 

* [e tuas, claro]




 

 

Não é que vos deseje tal coisa mas, just in case, aqui fica: The Guide to Sleeping in Airports. Enjoy.




Quarta-feira, 21 de Março de 2012

Se é certo que em qualquer canto do mundo me sinto em casa, não sei se por este espírito de nómada que me acompanha ou esta curiosidade ávida que não me larga, a verdade é que Timor me é demasiado familiar. Quem aqui chega facilmente reconhece o Portugal dos anos setenta. O Portugal da minha infância onde as galinhas e os porcos são criados na rua, onde os cães andam ao desvario e o almoço do meio-dia se começa a preparar bem cedo. Aqui come-se o que a terra dá, no tempo da colheita. Uma terra que se trabalha bem cedo num dia que termina lá pelas sete da noite. E quando falta a luz, estou capaz de jurar que quase sinto o cheiro a petróleo no ar daqueles candeeiros de vidro que a avó colocava bem no centro da mesa enquanto a sopa de couves fumegava nuns pratos já lascados pelo tempo.

 

Engraçado, vai para um ano que não vejo televisão e não me faz falta. Em casa da avó era assim. No inverno, depois da loiça lavada, ficávamos as duas a ouvir os pedidos dos ouvintes na rádio que passava. A avó lia daqueles romances de amores perdidos e mulheres traídas e eu aninhava o livro dos “Cinco” entre as mantas e o dorso da cadela que vinha enfiar-se comigo na cama. No Verão púnhamo-nos à janela a falar com as vizinhas que passavam e havia gelados de groselha que a avó fazia só para mim. Eu tive uma infância tremendamente feliz, caramba. Feita de coisas simples, de cheiros inconfundíveis, de roupa e sapatos remendados, de banhos de púcaro e água aquecida em panelas, de idas à feira porque era mais barato, de compras no mercado bem cedo pela manhã, de vivência de bairro, de cântaros transportados em braços para regar a horta, de visitas à modista para fazer vestidos em dias de festa, de tantas coisas.

 

Muitas vezes dou por mim a pensar que pessoa seria eu hoje se não tivesse tido o amor imenso daquela mulher. Não sei.




Terça-feira, 20 de Março de 2012
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PNTL accompany STAE workers, who had to carry ballot papers and other sensitive material on foot after the Tono River in Oecussi became impassable.

 

Photo by UNMIT | John Draper



Maria | comentar

Segunda-feira, 19 de Março de 2012

E eu, que sou uma piegas, que vibro com estas coisas, que sinto uma profunda admiração por este povo e pelo que ele já passou, dei por mim com lágrimas nos olhos ao felicitar os meus colegas timorenses pelo extraordinário trabalho feito. Que privilégio tremendo estar aqui. Que oportunidade fantástica a de aprender com esta gente e, acima de tudo, o respeito. O enorme respeito por um país que apesar das vicissitudes várias, apesar do muito que ainda há para fazer e melhorar, aos poucos, no seu ritmo muito próprio vai percorrendo e construindo o seu caminho. 




Sábado, 17 de Março de 2012

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Por aqui já são sete da noite. De uma noite que se avizinha longa. No mínimo, dos mínimos, esperam-me mais doze horas de trabalho sendo que, ainda assim, alimento a secreta esperança de amanhã de manhã eu e a minha bela cama nos podermos voltar a encontrar. Mas estou feliz, pá. Se alguma vez me passou pela cabeça, há um ano atrás, estar hoje a viver uma coisa destas. Nunca. Mas a verdade é que aqui estou eu. A litradas de café, com umas olheiras de meter medo, mas feliz. E isso vale tudo, verdade, minha gente. E [pronto hoje deu-me para o sentimento] pode parecer-vos estúpido mas já me lembrei tanto de todos vós. Cá um abraço pessoas da minha alegria.




Sexta-feira, 16 de Março de 2012

17 de Março de 2012. São 6 horas da manhã. Ainda há pouco cheguei a casa e já estou de saída. Por aqui misturam-se os dias com as noites, o cansaço é tremendo, o ritmo alucinante mas estou a adorar cada segundo. Hoje milhares de timorenses são chamados às urnas e o mais incrível no meio disto é que eu estou aqui para ver. Experiência incrível, minha gente, incrível. Vamos lá Timor. Tem tudo para dar certo.

 

 

* Joana Alarcão, aguenta firme ai no batente, mana. Isto só vai parar lá para Domingo à noite.




Terça-feira, 13 de Março de 2012
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STAE sent over 740,000 ballots to the 13 districts after amending them to reflect the death of Presidential candidate Francisco Xavier do Amaral.

Photo by UNMIT|Bernardino Soares

  

Eh pá nunca mais disseste nada, levas três semanas para responder aos e-mails [e eu que adoro aquela malta que acha que pode tirar satisfações ou exigir o que quer que seja], já não ligas nenhuma às pessoas [e também gosto muito de gente desocupada que pensa que os outros só porque trabalham numa ilha tropical passam o dia a coçá-los], tens sempre o telefone ocupado, blá – blá – blá –blá.

 

* Mezinhas caseiras para combater olheiras que já só param a meio dos joelhos, quem tem?




Quarta-feira, 7 de Março de 2012

Por aqui entramos em contagem decrescente. Faltam dez dias para a primeira volta das eleições presidenciais. Todos se desdobram para que tudo corra como esperado e dá gosto ver o entusiasmo desta gente e a forma como, aos poucos, tudo se vai compondo. Com nervos, com boa disposição, com alterações de planos em cima da hora, muitas vezes no último minuto, é verdade. Mas é uma alegria trabalhar lado a lado com estes colegas timorenses e sentir que, sim, que apesar do muito que está por fazer, do cansaço acumulado e das noites que ainda estão para vir, Timor-Leste está [quase] pronto para o dia 17 de Março de 2012.

 

Irmandade do Sapo, que orgulho, pá, que orgulho. Parabéns. O site ficou fabuloso.




Terça-feira, 6 de Março de 2012
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A farmer from Oecusse checks her harvest.

Photo by UNMIT|Martine Perret



Maria | comentar

Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

Às 15:32h de hoje, o telefone tocou. Do outro lado da linha estava uma das minhas melhores amigas. Não somos irmãs por mero acidente de genética e apenas por isso. Recebia-a com a alegria de sempre mas numa fracção de segundos percebi-lhe a angústia na voz.

 

“Telefonei para te dizer que o meu filho mais velho morreu num acidente de viação na madrugada deste sábado. Queria que soubesses por mim”.

 

E o silêncio foi grande. Tão grande quanto a distância que nos separa. Entre nós não há essa coisa do sinto muito, do sabes que estou aqui. Entre nós não há perguntas, não há respostas. Não há aquela curiosidade mórbida em saber como, quando, onde aconteceu. Ela precisava contar-me que o filho, de vinte anos, que vai enterrar amanhã tinha morrido. Apenas isso. Pedi-lhe que tivesse coragem e desligámos o telefone.

 

* Desde que cheguei a Timor, hoje foi o primeiro dia que desejei não estar aqui.




Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

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Dizem-me amiúde que esta ideia de mudar o mundo não passa de uma ilusão, de uma profunda irracionalidade. O que as pessoas não entendem é que o mundo se muda todos os dias, quando tocamos a vida dos que nos são próximos e daqueles para quem trabalhamos. E que é essa [nossa] atitude que pode fazer a diferença [para melhor] no mundo de alguém. Tão simples quanto isto.




Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Os meus pais sempre alimentaram a ideia de que um dia eu seria médica. Até ao 9º ano de escolaridade fiz-lhes a vontade. Aos quinze anos bati o pé, fui sozinha inscrever-me no liceu, e sai de lá com a matrícula em Humanidades certa de que seguiria Relações Internacionais. Quando acabei a minha primeira licenciatura, com uns frescos vinte e dois anos, alguns colegas em jeito de gozo, escreveram nas tão afamadas fitas de curso “então boa sorte para o curso de Direito e um dia encontramos-te na ONU” [estão guardadas em Lisboa, qual relíquia, para quem as quiser ver] perfeitamente convictos de que uma segunda licenciatura e meter os pés nesta organização não passavam de devaneios de uma miúda parva. Hoje, dezasseis anos depois, são precisamente aqueles que telefonam e enviam e-mails sempre que têm uma dúvida jurídica qualquer [como se eu tivesse a porra dos códigos enfiados na cabeça] e se interessam muito em saber como correm as coisas em Timor.

 

Eu admito, sim, admito que para algumas pessoas possa parecer algo presunçosa esta forma de estar na vida por parte de quem sempre soube desde muito cedo o que queria. Aceito, com alguns limites, que as pessoas questionem esta mania de planear os meus caminhos, me determinar em fazer as coisas acontecer e com trabalho chegar sempre onde me propus. E lamento, pá, lamento profundamente que quem teima em questionar a minha ida para Bruges* não tenha tido a sorte de ter uma avó como a minha. Alguém que lhes dissesse que as pessoas, na vida, podem ser quem quiserem e que não precisam do consentimento alheio para serem felizes. Que as pessoas, na vida, podem ir lá longe, correr mundo e voltar sem ter medo. E que quem somos e o que queremos é determinado pelo nosso coração, pelo carácter que temos, pelo que fazemos todos os dias, pela forma como tratamos o próximo e nunca pela língua viperina dos outros. Tão simples quanto isto.

 

 

* Amores, ponham-se na fila. Durante 26 anos vivi lado a lado com uma senhora que não dava um centavo por mim. Que todos os dias, todos os santos dias, me dizia repetidamente que eu nunca haveria de ser ninguém, que eu nunca chegaria a lado nenhum, que vinte valores por cada exame não era absolutamente nada de especial, que eu seria sempre uma desgraçada sem casa para viver, que nunca ganharia para me sustentar, que quem é que eu pensava que era para ir agora aos vinte e picos tirar um mestrado na Universidade Católica e aos trinta anos enfiar-me numa faculdade de direito, que nunca patrocinou uma puta de uma fotocopia, que ostensivamente me repetia para não contar com o dinheiro dela porque as minhas opções eram as minhas opções [quando eu cheguei a ter dois empregos e a estudar à noite ao mesmo tempo], que, que, que [que nem vale a pena continuar]. Acontece que esta senhora cresceu sem pai, nunca teve uma avó como a minha, até aos vinte e seis anos fez-me a vida num inferno mas tornou-me imune a certos comportamentos [e só por isso lhe agradeço]. Por isso, bem vêem. Ponham-se na fila. O máximo que conseguem daqui é um encolher de ombros.




Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012
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A raça da miúda não parava quieta. Primeiro queria uma foto, depois tinha vergonha e fugia. Depois já queria outra vez. Quando lhe mostrei a imagem na máquina, sorriu e disse-me em tétum: não tenho dentes.



Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

Pessoas houve, de facto, dois mini atentados com uma espécie de cocktails molotov em Díli. Foi esta madrugada por volta da uma da manhã e não houve danos de maior. Por aqui está tudo bem. 




Domingo, 19 de Fevereiro de 2012



Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

É verdade. Começou por ser um segredo. Guardado no seio da família, qual tesouro escondido. Acontece que hoje já não o é. Depois de obtida a permissão por parte de irmão querido cumpre-me informar ao mundo que vou ser tia, pessoas. Tia. O meu primeiro sobrinho está para nascer e vai ser a loucura completa. 




Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

 

No dia em que nasci já trazia em mim todos os pecados do mundo. Ninguém nasce puro, é sabido e o caminho da redenção é tortuoso. Sempre. Vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. Está cá tudo.

 

  

 * O que aqui foi dito: "a partir de hoje vamos fazer diferente: eu continuo a vir aqui falar da vida-vidinha, sempre que me apetecer, só para dar um ar da graça e não deixar este espécime [de que gosto tanto] ao abandono e o grupo do Gang já familiarizado com o registo de sempre está convidado a aderir à última invenção." Se há coisa que prezo na vida é gratidão e nunca fui capaz de fechar portas a quem me quer bem. Num registo mais comedido, sim, pelo que já foi explicado, mas continuamos por aqui.

 




Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

De vez em quando dá-me para as limpezas. Ele é telemóvel, e-mail, por aí fora. Vai tudo a reboque. Agora já reparei que as pessoas ficam muito susceptíveis quando nos desamigamos delas no FB. Dão se ao trabalho, inclusive, de vir tirar satisfações e tudo. Uma alegria. Oh pá é não porque eu não quero. Simples, an.




Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Tenho um problema de pele com: melgas, mosquitos e gente burra [não necessariamente por esta ordem].




Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

Já tenho casa em Manufahi. Linda. Amarelo-torrado por fora e roxa por dentro. Novinha em folha e a estrear aqui pela menina [porque Deus é Pai, não dorme e sempre na hora da aflição quando parece que estou quase, quase, a dormir na rua, lá consigo encontrar uma casa de quem nunca ninguém ouviu falar]. Temos quarto grande e todo pipi para receber os amigos do coração [os outros podem seguir a estrada para Viqueque], uma sanita a estrear e uns senhorios que praticamente me adoptaram. Já desencaixotei tudo e o roupeiro chega amanhã pelas 5h da madrugada. Já tenho amiguinhos novos e continuo a receber telefonemas diários dos colegas mais queridos de Maliana que, mesmo à distância, insistem em tomar conta de mim. Hoje vou jantar peixe fresco [estou que nem posso com a emoção].




Sábado, 14 de Janeiro de 2012
 

Depois de ter passado cinco meses a fazer o trabalho de dois [o meu e o do palhaço coleguinha querido], depois de em nome da tolerância que supostamente deve reger as relações profissionais entre colegas provenientes de diferentes partes do globo [é aquele bonito discurso do vimos todos de distintas culturas e do respeito pela diversidade e teca-teca] ter aturado coisas que não lembram a ninguém [nem vou entrar em pormenores] fiquei a perceber que na base de algumas decisões não reside nem o factor competência ou profissionalismo mas todo um conjunto de indicadores tendo à cabeça o tamanho da língua para lamber rabos [lamento imenso mas antes lavar escadas].

 

Acontece que a vida é feita de pequenos incidentes, sim. Muitas vezes profundamente injustos, é verdade, e que ser-se filho da puta tem alturas em que compensa. Mas a vida também é feita e construída passo a passo. E não raras vezes as pessoas se cruzam por aí. Dizem os mandamentos do Altíssimo que devemos perdoar. Pois bem. Haja perdão. Agora o Senhor não diz que devemos esquecer. Ora como o Todo-Poderoso é omisso nesta matéria, deixa-me que te diga que um dia, nem que leve dez anos, a vida [não eu, que tenho mais que fazer] vai encarregar-se de te brindar com todos os mimos com que tens presenteado os demais.

 

Muito poucos se podem gabar de em cinco meses terem conseguido granjear o carinho, o respeito e amizade da maioria dos elementos de uma equipa de trabalho [que de uma forma perfeitamente inusitada se ergueram em defesa de uma colega, eu], menos ainda aqueles que beneficiam da honra suprema de receber das mãos de timorenses algo* que lhes é tão caro e querido [eu soube o que isso era esta manhã].

 

Por isso, é verdade que deixo para trás uma casa fabulosa onde recebi gente que adorei, quase sessenta crianças junto de quem fazia voluntariado, dois dos melhores amigos que alguém pode ter [e que ainda hoje fizeram questão de serem eles a deixar-me no novo distrito, mesmo que isso representasse conduzir quase dez horas ininterruptamente], uma terra que me acolheu e vizinhos que me trataram como uma entre iguais. É verdade que ainda não tenho a certeza de ter um sítio onde morar, que esta noite vou dormir de favor em casa de dois colegas e que hoje já me vieram as lágrimas aos olhos quando o cansaço me vergou. Mas amanhã é outro dia. Amanhã é sempre outro dia, seguramente melhor, para os que acreditam que, apesar da putaria que para aí anda, vale a pena ser-se uma pessoa decente e determinarmo-nos por aquilo em que acreditamos.

 

Os meus caminhos nunca foram fáceis, é verdade, e não raras vezes levo o dobro do tempo a percorrê-los. Acontece que minha avó sempre me ensinou a caminhar direita e até hoje eu nunca me arrependi disso.

 

 

* E não. Não estou a falar daquelas cerimónias paneleiras onde qualquer palhacito leva com um tais pendurado ao pescoço. O meu foi-me oferecido pelas pessoas do meu bairro, por gente que viveu lado a lado comigo, que me acolheu e me protegeu, gente que tomou conta de mim [num bairro onde nunca ninguém da UN até então tinha conseguido viver] e a quem eu acarinhei, gente que me tratava por mana Jana. Gente que hoje carregou os meus caixotes na mudança, me abraçou de lágrimas nos olhos e me fez prometer um dia voltar a Maliana. E eu volto. Um dia eu volto nem que seja só para vos agradecer mais uma vez.




Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

E aquela malta que vai para o FB trocar galhardetes. Ele é "querida para aqui, mana linda para ali, cá beijinho, ai é tão bom ter-te de volta, ai que já tinha tanta saudade" e depois, pá, depois ao vivo e a cores é uma putaria que não se aguenta. Adoro.




Sábado, 7 de Janeiro de 2012

Adoro aquela malta que por tudo e por nada se põe em bicos de pés para falar de tolerância e de respeito pela diversidade. Adoro. Acontece que a tolerância é como a caridade: não se apregoa, pratica-se. E o respeito pela diversidade é assim um caminho de duas vias. Um para lá e outro para cá. Coisa bem diferente é lamber cus e engraxar sapatos. Não tem nada a ver.

 

E aquela malta que quando o chefe envia um e-mail a dizer que vai de férias desata a correr para o teclado do computador em jeito de “se há alguém que merece férias é o chefe e viva o chefe e longa vida para o chefe” [que nojo, pá]. Tivesses tu o mesmo expediente para responder aos relatórios que te pedem [que nem uma puta duma tabela em excel sabes preencher].




Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
 
Há um tempo na nossa vida em que, de uma forma mais ou menos esporádica, damos azo àquela velha tendência de querer que os outros e as circunstâncias mudem, pelo simples facto de considerarmos que a razão está do nosso lado. Depois, tempos há, em que concluímos que afinal ter a dita razão, por si só, acrescenta muito pouco aos nossos dias. É nessas alturas que desistimos de nos queixar do vento, de esperar que este mude e decidimos tão somente ajustar as velas. Até porque ao meu lado só caminha quem quero e andar por aí sozinha nunca me fez impressão. Já me habituei.



Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011
 
Happy New Year, people, Happy New Year and always remember this: a pessimist sees the difficulty in every opportunity. An optimist sees the opportunity in every difficulty.



Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
 
@ Timor Leste - Bobonaro - Maliana - Natal de 2011
 

O mundo é feito de disparidades várias. Tão várias e desiguais que chega a dar que pensar. Do mundo de onde vim, apesar das crises e afins, a maioria das crianças não sabe o que é receber de presente de Natal [apenas] uma pulseira de plástico. No mundo onde estou, tal pulseira [à mistura com uns quantos rebuçados que comprei no mercado] é recebida com sorrisos fartos e abraços entusiastas. O mundo é feito de disparidades várias. Tão várias e desiguais que chega a dar que pensar.




Domingo, 25 de Dezembro de 2011

 

 

 

 

 

 

Vamos lá ver se nos entendemos: uma coisa é eu raramente me queixar, apresentar níveis de optimismo estupidamente acima da média e estar [quase] sempre disponível para presentear os demais com uma palavra de incentivo, de carinho, de ânimo, seja lá o que for. Outra coisa é as pessoas assumirem que este meu registo é contínuo independentemente do comportamento que adoptem, quando não é. Dito de outra forma: passar o Natal praticamente sozinha a comer galinha e atum foi uma opção minha, sim. Fui eu quem decidiu vir para Timor. Não teres cinco minutos para me retribuir a chamada que ontem te fiz foi uma opção tua. Já uma vez te disse que a filiação não é condição de afecto. Teimas em não perceber. Lamento por ti. Ontem lamentei por mim.




Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

 

O tempo. Sempre o compasso do tempo. Aquele que nos afastou e nos voltou a juntar. O tempo que falta e o que sobra. Aquele que já passou e aquele que nos será dado. O tempo que não chega e o que teima em correr. E a distância. A que atravessa os dias. Só que entre o tempo e a distância prevalecem os afectos. Sempre. Nós somos a prova disso.




Sábado, 17 de Dezembro de 2011

Deixa-me explicar-te uma coisa my dear, tu não és a primeira nem serás seguramente a última alma tinhosa com quem já me cruzei na vida. Aliás, se eu fosse fazer contas ao gado com que já tive que lidar, dez estrebarias, daquelas bem grandes, não me chegavam. Acontece, my dear, que a terra é redonda [e dá voltas do caneco, oh se dá]. Ora presumo que saibas o que é que isto quer dizer, certo. Havemos de nos encontrar por aí. Não tenhas dúvidas. Roma não paga a traidores e eu tenho uma memória prodigiosa para gente filha da mãe.




Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Há pessoas que me escrevem mensagens com portentosas manifestações de saudade e um exacerbado entusiasmo e depois ficam muito admiradas quando na volta do correio recebem uma resposta seca mas não menos bem-educada [honra seja feita aos meus santos pais]. Acho piada a esta gente. Quando eu estava em Portugal nunca tinham tempo agora é uma coisa como não há memória. Eu explico: desde meados de 2009 até à presente data, quem não esteve já vem tarde. Simples, não.




Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

 

 

Eu sabia que a minha Moira não me ia deixar para aqui desamparada e a esganar de fome. Eu sabia. Agora, em bom rigor, também não contava com setenta e sete receitas, excluindo todas as fantásticas sugestões, truques e dicas que me chegaram via e-mail. A todos os que acarinharam este desafio e nele participaram um grande bem-haja. Agora sim, sinto-me preparada para vestir um avental com entusiasmo e fervor. E isto, pessoas, pode ser um pequeno passo para mim mas é um grande passo para a Humanidade. 

 

Aqui ficam as belas das receitas: 

 

Peixe

 

Carne 

 

Outros

 

Doces e Sobremesas




Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

 

Gracias a la vida que me ha dado tanto

 

Em 2010, escrevia-se assim:

 

Todos eles vieram dos sítios mais distintos. Uns de bem perto outros de longe. Atravessaram este temporal de domingo só para me abraçar, dizer “gosto de ti” e sentarem-se à mesa comigo. Éramos 24. A surpresa da noite, uma serenata. O melhor telefonema, o da meia-noite e dez. Dizem-me que mereço. Eu acredito que sim. Life is good.




Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Ai miúda, tu sabes lá, há merdas que só me acontecem a mim. Quando aqui cheguei na quinta-feira, já ao cair do dia, vinha cá com uma mula duma telha [coisas minhas] e toda a gente me parecia meia esgazeada, não atinava com as raparigas da recepção, o quarto não tinha janelas, uma pessoa para fumar um cigarro quase que tinha que se esconder no canto da esquina da rua, enfim, nada que uma boa noite de sono não resolvesse.

 

Na sexta andei aqui pelas redondezas, Little India para a frente, Little India para trás, Mustafa Centre [porra que aquilo é grande que se farta], comprei umas sandálias todas pipis, comi um gelado de manga cheio de nozes e a coisa compôs-se.

 

No sábado chovia, mulher, estás a ver aquelas chuvas tropicais acompanhadas de trovoada que mais parece que a terra abana? Tal e qual. E uma pessoa ali enfiada no quarto e a fumar cigarros à porta da rua, até que me aparece o Adi, que trabalha aqui no hotel, e se não é uma réplica da tua bicha maluca, ai filha, anda lá perto. Um querido, pá, um querido. Estivemos à conversa e, olha, por sugestão do Adi, decidi ir cortar o cabelo a um sítio todo xpto. Nunca na minha vida tinha entrado num salão daqueles todos proeminentes em que vem um e abre a porta e depois vem outro e oferece uma cadeira para nos sentarmos e mais um que nos traz chá e bolachinhas e a seguir outro que vem discutir a cor que queremos aplicar e ainda outro que aparece para definirmos o corte, caralho pá, e eu já a olhar para a carteira e a pensar “ai foda-se, no fim disto tudo, ainda fico aqui a varrer o chão ou então levam-me presa”. Mas não amiga, saí de lá com um ar todo jolie. Não te vou dizer que paguei o mesmo que pago na cabeleireira lá do Bairro, mas também não tive que fugir e, assim como assim, uma vez na vida uma pessoa também merece, certo.

 

À noite deixei-me ficar pela Orchard Road. Ai pela tua saúde que eu nunca tinha visto tal algo em toda a minha vida. Milhares de pessoas na rua, mesmo a chover torrencialmente, tudo com saquinho Prada, Chanel, Louis Vuitton e eu ali pá embasbacada com aquilo. As ruas todas iluminadas e cheias de decorações de Natal mas em grande mesmo, ele é shopping mall por tudo quanto é lado [em frente, para a esquerda, para a direita, uma pessoa vira-se e é shopping mall a perder de vista], gente de todos os formatos e feitios, uma animação do caneco e duas horas à espera de um táxi [que eu bem que olhava para todo o lado mas do metro não percebia um corno e no autocarro tive medo de me enfiar não fosse eu, com a puta de sorte que tenho, ainda ir parar à Malásia].

 

No domingo andei pelo Merlion Park, por Chinatown, pelo Mount Faber [a vista é soberba], fui ainda ver a fábrica de joalharia [eh pá e eu que só naquela da loucura pedi para ver um colar todo cheio de diamantes, lindo, pá, lindo, e quando a rapariga me colocou aquilo no pescoço toda eu brilhava dos pés à cabeça. Que cena. Ter dinheiro assim em grande, miúda, não traz felicidade, que a gente sabe que não traz, mas, porra, compra coisas tão bonitas] e no fim dei um salto ao Jardim Botânico. Impressionante, realmente.

 

À noite, deu-me na mona de ir conhecer Sentosa e inscrevi-me numa dessas excursões. Olha, devia era ter gasto o dinheiro todo em garrafas de vinho, pá. Apanhámos uma velha maluca como guia, o raio da mulher só queria era pôr-se a andar, mais de metade do programa não foi cumprido, eu estava a ver que um dos indianos que vinha no grupo espetava um chapadão na mulher, uma família de seis [acho que da Malásia] que não paravam de berrar que tinham pago os tickets, e eu só me ria, pá, que os nervos só me dão para isto, nada a fazer. Quando cheguei ao quarto, cheia de dores nos pés [que a velha tinha cá uma pedalada] atirei-me para dentro da cama que foi um mimo.

 

Hoje fiz-me ao metro. Esta cidade é, de facto, espectacular. Andei por Clarke Quay, Esplanade, Marina Bay, Merlion Park, dei uma volta no rio e lembrei-me de ti, miúda, lembrei-me tanto de ti. Singapura primeiro estranha-se, depois entranha-se e quando menos dás por ela só te apetece ficar por cá. De seguida andei por Chinatown [que puta de loucura] e depois voltei a Little India.

 

Estava já a preparar-me para ir à tasca do chinês quando me deu o cheiro a mexilhão. Olhei e era um restaurante francês todo pipi. Eh pá, eu que não como disso vai para seis meses, pensei “que se lixe, vamos embora”. Regalei-me que nem uma perdida. Depois, não satisfeita, pedi um bife tártaro. Pareceu-me bem. Então não é que me espetaram um prato de carne crua com um ovo em cima. Sabia lá eu o que é que estava a pedir. Vi bife escrito no menu e nem pensei duas vezes. Ai mulher, ia-me bolsando toda, credo, [logo eu que gosto de carne bem passada] mas também não me desmanchei. Ainda estou para aqui agoniada, mas pronto. Valeu pelo mexilhão.

 

Amanhã completo 38 anos, Anita, é verdade, 38 anos. Hoje olho para trás e dou por mim a pensar que a vida tem coisas do caneco. Se alguma vez me passou pela cabeça passar o meu aniversário em Singapura. Nunca. Mas a verdade é que aqui estou eu. E prometo que passo lá na rua dos árabes, miúda, é certo e seguro. Amanhã vou aos árabes. De seguida, lá para o fim da tarde, tomo um café com o primo da Francisca e depois logo se vê. Talvez volte à Orchard Road só para me despedir, logo vejo. E agora, vai lá matar saudades, vai.




Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Estou numa terra onde pastilha elástica não entra, onde até a cor das cuecas [praticamente] temos que declarar no aeroporto, onde para se fumar um cigarro é preciso uma pessoa fazer uma ginástica nunca vista e as gentes [à primeira vista] têm um ar assim um bocadinho esgazeado. Ridículo ou não a verdade é que aterrei ontem já ao fim do dia e ainda estou para perceber se Singapura terá sido uma boa escolha. São oito da manhã, vamos lá ver esta terra com outros olhos.




Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011
 

E, passados dois meses [sem luz na maioria dos dias, a comer galinha com arroz e arroz com galinha de manhã à noite e a aturar coleguinha querido com distúrbios mentais comportamentais], eis que é chegado o tão desejado R&R [Rest and Repose], o mesmo é dizer cinco dias de vacances com viagem paga [porque a alternativa seria, ao fim de uns tempos, meia missão andar a xanax e a tomar coisas para acalmar os nervos e, assim como assim, sai mais barato pagar viagens até um determinado valor do que sustentar este povo todo a calmantes]. Por isso hoje lá vou eu a caminho de Singapura. Diz que aquilo tem regras para tudo e mais alguma coisa e que se uma pessoa tem o azar de ter um ataque de tosse no meio da rua vem logo uma brigada de multa na mão. A ver vamos. Depois venho cá contar. Quem conhece, quem já passou por lá, sugestões, essas coisas.




Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

As pessoas, não raras vezes, escudam-se num registo de falsidades e omissões percebendo muito mais tarde, e da pior maneira, que uma verdade indesejável é sobejamente preferível a uma mentira ardilosa. E é uma pena, sabes, porque em bom rigor nós não nos devíamos nada. Rigorosamente nada. A não ser aquela franqueza que é expectável nas relações entre pessoas de boa índole. Simples.




Terça-feira, 29 de Novembro de 2011
 

Então vamos lá falar claro:

 

Sabe da existência deste espécime virtual, vulgo bolg pessoal [que mais não é do que um exercício de expiação e catarse], quem eu quis que soubesse [e não a putaria inteira que o Carnaval é só lá para Fevereiro] e quem, por acaso, com ele se cruzou um dia por essa blogo fora e decidiu voltar. É meu. Não o nego mas também não o publicito.

 

Se me incomoda a reprodução de alguns textos aqui publicados na blogosfera ou no FB? Nada. Não me incomoda nada [desde que identificada a autoria, como é óbvio] e não raras vezes entendo isso como um gesto de carinho.

 

Agora, vamos lá ver se nós nos entendemos: eu dei, é verdade, não sei quantas entrevistas à imprensa escrita e mostrei esta carinha laroca do meu pai duas vezes na televisão nacional em nome de um projecto que quis e quero cumprir. Não foi fácil, porque nunca é, uma pessoa expor-se assim na TV, ir lá contar a história da vida vidinha. Mas fui. Com todas as ganas, os nervos à flor da pele, um sonho para cumprir e a humildade de pedir ajuda.

 

Neste percurso fantástico [que interrompi por razões sobejamente explicadas e conhecidas] fui tremendamente acarinhada por toda a gente [tirando a vacaria do costume, mas pronto, isso já lá vai]. Gente que tive oportunidade de conhecer e gente que quero abraçar quando chegar ao meu país. Gente que ousou sonhar comigo e gente que trouxe [e conservo] cá dentro do peito. Gente que me anima na adversidade e gente que partilha dos meus entusiasmos [e às vezes basta um simples comentário]. Gente que me acompanha há anos e gente que chegou agora. Pessoas de quem gosto [muito], a quem devo [muito] e que nunca conseguirei explicar o quão importantes foram e são na minha vida.

 

Acontece que a noção dos limites em espaço alheio é coisa bonita. Bonita de se ver e praticar. E, naturalmente [creio eu], cabe-me a mim [e não a terceiros iluminados] decidir o que partilhar [ou não] da minha vida [leia-se blog pessoal] na página oficial daquele meu projecto e quais as pessoas [que me lêem e por aqui passam] que quero [ou não] conhecer pessoalmente.

 

Bem podem meter a conversa do “ah pá mas é porque gosto muito e acho que tens tanta piada e tinha imensa curiosidade em conhecer-te” pelo rabinho adentro. A blogo tem regras. O respeito e a reserva são condição desta relação de partilha entre quem escreve e quem lê. Simples. Por isso, o acto de divulgarem a existência deste blog junto de pessoas com quem trabalho é pura estupidez e maldade e o facto de se servirem de quem me é próximo para chegarem até mim é de uma profunda falta de respeito, ainda para mais se considerarmos que toda a gente pode contactar-me via e-mail e que nunca ninguém ficou sem resposta. E não, caralho, eu não mordo. Regra geral sou educada com as pessoas que me abordam.

 

Em suma, não sou eu quem tem de se privar do acto que escrever [coisa que para mim funciona como um escape] nem tão pouco resguardar-me do que quer que seja [não devo nada a ninguém nem ando para aí a publicar fotografias eróticas da minha pituxa – nada contra, diga-se de passagem, cada um publica o que quer]. Sois vós, gentinha inconveniente, quem deve passar no hospital mais próximo e requisitar tratamento psiquiátrico imediato. Isso ou napalm do bom. Napalm nesses cornos e acaba-se logo com a mania.

 

* Meus amores lindos, estamos de volta, sim. Cá beijito que tive saudades vossas. E um abraço do tamanho de Timor para a Irmandade do Sapo [vocês têm cá uma paciência para me aturar, caroço, gabo-vos a pachorra].




Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

 

Tu sabes que eu nunca serei uma pessoa de equilíbrios fáceis, de ponderada sensatez ou palavras comedidas. Conheces-me há tempo demais. Sabes bem que em mim tudo é sofreguidão, tudo é imediato, que as esperas me desesperam, que nunca terei esse teu lado racional que tanto invejo. Que pedirem-me para ter calma é o mesmo que me atearem fogo e tão pouco adianta coisa alguma. Que a brusquidão dos gestos e das palavras raramente encontra correspondência nos afectos e que cinco minutos depois eu vou olhar para ti, falar-te das coisas mais triviais e redimir-me o melhor que posso e sei de uma forma igualmente genuína. Sabes bem que serei sempre uma mulher de tempestades e vendavais mas que é em ti que me encontro e reconcilio. Que é no teu corpo que descanso e que a tua voz é a única que me segura e tranquiliza. Sempre. Conheces-me há tempo demais. É o quanto baste.




Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

É sabido que não dou uma para a cozinha, nem duas para a costura. Diz-se que tenho uma descoordenação motora cientificamente comprovada e diagnosticada fruto de uma genialidade [palavras lá do Senhor Dr.] que um dia ainda vai revelar-se algures na minha vida. E talvez por isso, por essa inaptidão crónica, fico sempre extasiada com as pessoas que fazem maravilhas agarradas aos tachos e às panelas, à agulha e ao dedal e ainda preservam intactos todos os dedos das mãos. E quando essas pessoas têm um talento único que merece ser acarinhado e divulgado, então, aí babalus estou cá eu. Made by Zita




Terça-feira, 8 de Novembro de 2011
 

Isto é assim meu filho duma grande cabra amor lindo: eu respeito toda a gente com quem trabalho. Nem sempre sou a pessoa mais simpática do universo nas primeiras abordagens, mas o respeito é coisa que sempre se praticou por estas bandas. Pode ser branco, preto, amarelo, cor de laranja, mais tostado, menos tostado, às pintas, eu respeito. Pode ser cristão, católico, muçulmano, hindu, protestante, pertencer a uma seita marada, eu respeito. Pode ser uma mente brilhante, um atraso de vida, ter uma inteligência mediana, eu respeito. Agora meu filho de uma grande mula amor lindo, confundir uma pessoa cortês [como eu] com uma pessoa otária é assim um daqueles erros crassos que te vai custar os testículos, sabes. Porque eu sou uma Lady meu filho duma grande vaca amor lindo. Uma Lady. E ainda está para nascer o primeiro cabrão que me ponha a pata em cima. E tu, a bem dizer, nem estás bem a ver o quão cara te vai sair a merda que fizeste hoje de manhã. É que meu filho duma grande égua amor lindo eu podia ser a tua melhor colega, é verdade que podia, e durante este tempo todo aturei-te merdas que nem eu sei como, mas tu optaste pelo dark side of the road . Portanto sabes o que é que isso quer dizer, não sabes. Quer dizer que tens a cabeça a prémio e que a próxima vez que te virares com esse ar de boi desembestado para uma senhora a perguntar-lhe “are you coming or what” [como se eu tivesse a coçar a micose em vez de estar a fazer o teu trabalho] vai ser mesmo lá na tua terra onde as mulheres são tratadas como mercadoria. Querias festa? Podes começar a dançar.




Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011
 
 
Eu não sei como vos explicar isto até porque eu própria tenho alguma dificuldade em compreender certo tipo de obsessões. Mas vejamos: fez, em meados do mês que passou, dois anos que decidi por razões várias [e que não são para aqui chamadas] afastar literalmente determinada gentalha [que ingenuamente tinha por amigos] da minha vida. E quando digo literalmente, é literalmente. Do tipo mandar avisar que talvez não fosse lá muito boa ideia virem cumprimentar-me, entre outras diligências. Ou seja, há momentos na vida das pessoas que embora duros são clarificadores. E foi isso que me aconteceu. Sendo certo que espero sinceramente que nenhuma das criaturas tenha alguma vez um ataque cardíaco à minha frente [sim, de vez em quando penso nestas merdas] porque nesse dia eu não vou seguramente lembrar-me do art. 200º do Código Penal. Acontece que dois anos passaram e a vida seguiu em frente. Sacudimos a poeira, levantámo-nos do chão e redefinimos alguns projectos de vida. Ou não. Pelos vistos parece que não. Pelos vistos não faltam por aí pessoas muito incomodadas com o facto de eu não querer sequer olhar-lhes para a tromba. Gente que insiste em saber o que faço ou não faço, gente que dois anos depois ainda teima em interferir no curso dos acontecimentos [os meus] e isto não é normal. Agora, a questão que se coloca é a de se saber se isto tem cura. Esta merda tem cura, pessoas. Há por aí alguma instituição que se possa recomendar a esta gente.
 
 
* E sim. São fotografias de Bali onde me diverti muito e onde um dia hei-de voltar. Porque Deus é Pai e não dorme, seus caralhos murchos [pardon my french, pessoas queridas que por aqui passam e a quem devo tanto - isto não tem nada a ver convosco]. Não dorme mesmo, ouvistes oh ratas de esgoto com um focinho de meter medo.



Terça-feira, 1 de Novembro de 2011
 

 Imaginem que vão viver para uma terra onde só encontram os seguintes alimentos e que não têm nem forno, nem varinha mágica, nem batedeira nem nada dessas modernices. Só um fogão com dois bicos. Receitas. Quero receitas daquelas práticas [porque depois de um dia de trabalho nas montanhas poupem-me a canseira que chego a casa esganada de fome]. Então temos: 

 

Galinha e ovos | Salsichas [em lata] - [que trago de Díli] | Atum [em lata] - [que trago de Díli]

 

Arroz | Batata | Esparguete  [que trago de Díli]

 

Alface | Pepino | Cenouras | Tomate | Cebola | Alho |Pimento e Abóbora [que trago de Díli]

 

Maçã | Banana | Coco | Laranja [que trago de Díli] | Papaia [que trago de Díli] | Melancia [que trago de Díli] 

 

Azeite e Óleo [que trago de Díli] – caro que se farta mas há. Farinha e sal também há bem como açúcar e canela e especiarias do tipo pimentão, colorau e orégãos. Pessoas, estou a contar convosco mas poupem-me aos gramas disto e as ml daquilo. Fale-me em chávenas e em colheres porque aqui não tenho nem balança nem copo de medidas. Vamos lá deixar aqui a bela da receita fantástica porque já me agonio toda com a galinha picante desta gente e o arroz do tipo argamassa. E eu preciso de me alimentar, claro está. Moira conto contigo, amor lindo.




Sábado, 29 de Outubro de 2011

Pessoas que querem perder uma média de um Kg por dia: deixem-se de correrias, ginásticas e dietas loucas. É vir para Timor, apanhar uma infecção viral daquelas mesmo em bom e durante três dias não conseguir ingerir outra coisa que não seja água. Os únicos inconvenientes são uns febrões do caneco e ao fim de algumas horas uma pessoa já não conseguir sentir o rabo com tantas idas à casa de banho. Também se fica assim com um ar amarelo e transpira-se para burro, mas pronto. O médico já cá esteve em casa e não, não é malária nem dengue [fui ao hospital quase levada em braços para fazer análises]. Só uma virose marafada. Se esta mula me levasse a celulite toda, isso é que era.




Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

 

Quando as pessoas crescem, se moldam e se formam num contexto adverso e de extrema solidão, tal não significa que tenham perdido a capacidade de dar, de se interessar ou cuidar dos outros. Significa, tão só e apenas, que aprenderam a não contar com os demais para o que quer que seja.



Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

Meus amores lindos, esta que vos escreve vai amanhã para Díli. Poder participar no meu primeiro United Nations day [que oficialmente é dia 24 de Outubro mas cujas comemorações começam já este sábado] é algo que, para mim, seria impensável há um ano atrás. Ora digam lá que os sonhos não se cumprem na vida daqueles que acreditam. Daqueles que acreditam e têm a grata felicidade de ter gente como todos vós a seu lado. Eu sou a prova disso mesmo. Gosto [muito] de vocês, pronto. Hoje deu-me para isto.

 

 

* Ah e volto lá para segunda-feira por isso se não passar por aqui antes, nada de preocupações. Está tudo na paz. Aquele abraço.




Terça-feira, 18 de Outubro de 2011
 
Meu pai e minha mãe primaram sempre por dar a ambos os filhos uma educação alicerçada em valores que, a avaliar pelos dias que correm, se encontram perfeitamente fora de moda. Na verdade eu devia era ter nascido com vocação para puta, só que a vida trocou-me as voltas e fez de mim uma gaja séria [vulgo remediada e honrada com uma pitada de mau feitio]. Agora se eu fosse uma grande meretriz não só tudo seria mais fácil [porque puta, que é puta, não estrilha muda de esquina] como não teria metade dos dilemas que tenho [puta não tem consciência logo não tem problemas desses]. Em suma, com outros progenitores e eu podia ter tido uma vida daquelas mesmo em bom.



Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

Como amanhã é dia de ir embora até ficava mal uma pessoa abalar de Bali sem experimentar um dos milhares de SPAs que há nesta terra. Depois de muita pesquisa, muito comparar de preço, muito regatear, lá optei por aquele que me parecia ser o melhor.

 

Ora estávamos nós a meio do tratamento quando depois de muita massagem, muita esfoliação [com direito a tudo aquilo a que uma pessoa de bem com a vida e com os outros merece] sinto a cama onde estava deitada abanar. Confesso que no meio daquele relax todo até pensei: olha esta cena vibra e tudo. Como deixei de sentir as mãos da massagista, tirei as duas rodelas de pepino que tinha enfiadas nos olhos e olhei para o lado. Estava a criatura esticada no chão com ar de pânico.

 

O primeiro pensamento que me veio à ideia foi o de um atentado terrorista. Ontem assinalaram-se os nove anos do atentado de 2002 e a malta fundamentalista gosta muito de repetir este tipo de episódios. Depois [isto tudo numa fracção de segundos] percebi que afinal era um tremor de terra. Eh pá nunca na minha vida tinha passado por isto. Porque uma coisa é um abanico, outra é mesmo um tremor de terra com tudo a tremer à nossa volta.

 

A moça continuava no chão e eu ali, toda descascada, com umas cuecas de plástico, o corpo cheio de uma pasta verde e só pensava: ai o caralhinho pá, querem lá ver que eu vou desta para melhor nestes propósitos. Nisto a coisa acalmou. Claro que o ambiente sereno do dito SPA deu lugar a um nervoso miudinho por parte das funcionárias e, às tantas, já estavam todas dentro da mesma sala que eu. Elas a falar em indonésio e eu ali enroladinha num trapo manhoso a pensar que aquilo não era de todo a ideia que tinha de uma sessão de relaxamento. Bom, os ânimos lá serenaram e o tratamento seguiu. Recomenda-se vivamente. E pelo preço que foi então [10 euros] era bem capaz de fazer isto todas as semanas [mas sem tremor de terra, por favor].

 

Almocei pela zona e fiz horas até o Budi chegar. Às quatro da tarde já estávamos nós dentro do carro, no centro de Kuta, a caminho de Denpasar quando se dá novo tremor de terra. Eh pá pela vossa rica saúde que eu não sou nada medricas mas ia-me ficando ali cheia de medo. As pessoas começaram todas a correr para a rua [as que estavam dentro das lojas], as que estavam na rua começaram a correr em direcção sabe lá Deus onde e eu ali enfiada dentro do carro. O trânsito todo parado, toda a gente com um ar de pânico [esta merda é uma ilha, não há por onde fugir], os templos a abrirem as portas e as pessoas a saírem lá de dentro. E eu só pensava: ai Senhor, pela tua saúde, deixa-me ir morrer à minha terra. Aqui é que não.

 

Viemos o caminho todo sem dizer palavra. E logo eu e o Budi que somos uns conversadores de primeira. Já estou na casa dos padres em Denpasar e queira Deus que não haja um take III porque, convenhamos, isto ao vivo e a cores é assim uma espécie de adrenalina que dispenso. Amanhã regresso a Díli. Até lá.




Pessoas todas queridas preocupadas comigo:

 

Houve de facto um tremor de terra em Bali. Deu para sentir e de que maneira, foda-se. Apanhei um susto do caneco mas está tudo bem, ok. A terra abanou que se fartou e eu nunca tinha sentido nada assim. Por pouco não vim para a rua com umas cuecas de plástico. Regresso hoje a Denpasar e logo a noite conto-vos tudo.



Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

 

De ti tudo me faz falta. Os abraços e as conversas cúmplices. Os beijos e o riso. Os jantares serenos e os banhos demorados. O ficarmos enroscados no sofá a comentar cada notícia que passa, o adormecer dos corpos aninhados em lençóis de algodão, o acordar preguiçoso e o pão fresco logo pela manhã. De ti tudo me faz falta. Menos a saudade. Essa não me faz falta nenhuma.




Terça-feira, 11 de Outubro de 2011
Faz amanhã nove anos que morreu. Não sei quem era ou como era. Sei que os caminhos o trouxeram até Bali foram exactamente os mesmos que os meus. O Diogo estava ao serviço das Nações Unidas em Timor-Leste e aproveitou uns dias de férias para atravessar a fronteira. Foi o único português vítima do atentado de 2002 e por ele a nossa bandeira está onde nunca deveria ter estado. E uma pessoa comove-se ali no Bali Memorial. Pelo Diogo. Por todos os nomes gravados naquela pedra e por aqueles outros que não se conseguiram identificar.



Domingo, 9 de Outubro de 2011
 

Domingo é dia do Senhor e de trabalho a tempo inteiro para o Budi. Como tal, de mapa na mão, lá me fiz à cidade de Denpasar. Ora uma pessoa lá porque está a viver quase no meio da selva não tem que se deixar abandalhar e como em Maliana nem para cortar o cabelo há lugar aproveitei e, num rasgo de coragem, enfiei-me num centro comercial [assim com ar de Martim Moniz] e pensei: bem, antes ter o cabelo verde do que branco, seja o que Deus quiser. Resultado, não estamos a falar de nenhuma sumidade de LA mas a verdade é que o moço não só se cingiu ao corte das pontas [tal como lhe pedi] como também não me deixou a trunfa com ar de Maria José Valério. Agora a criatura que me arranjou as mãos e os pés, ai minha mãe do céu. Que talento. O tipo [é verdade, um homem, até fiquei admirada] mete todas as brasileiras que já conheci a um canto [e gente, se há quem saiba fazer uma manicure em condições é a minha Célia]. Acresce que nunca em toda a minha vida tinha pago 20 euros por cortar, lavar e secar o cabelo mais manicure e pedicure [os preços em matéria de estética aqui são anormalmente baixos] com direito a massagem e tudo. A loucura.

 

Já com os pezinhos besuntados de creme e um ar decente, fiz-me ao passeio. Denpasar é a cidade dos templos [que pena não poderem ser visitados], dos sorrisos, da gente que vende tudo e mais umas botas, dos taxistas que passam e perguntam “Where are you going, madam?”, das sedas e dos tecidos cheios de cor, do mercado tradicional com três andares cheios de fruta, de incenso e especiarias [todas e mais algumas], da venda de flores e de peixe na rua, das lojas que vendem ouro e ocupam meia avenida, das senhoras bonitas e de andar delicado, dos rituais de oferta, dos cânticos de oração, da ginástica feita às seis da tarde no parque da cidade, das motas e dos carros tudo à molhada, tudo aos magotes [que uma pessoa para atravessar a estrada para o outro lado tem que levantar a mão, sorrir muito, fechar os olhos e desatar a correr], dos carrinhos que vendem comida, das espetadas de porco a assar no meio da rua, dos batidos de papaia e manga, da melancia vermelha e amarela, do verde luxuriante das árvores, da arquitectura fora de série. Denpasar é tudo e isto e muito mais. E, de tudo o que vi até agora, a minha preferida.




Sábado, 8 de Outubro de 2011
 

Saímos de manhã cedo. Eu e o Budi rumo ao vulcão de Kintamani. Toda a gente dizia que era muito bonito e que valia a pena e tudo o mais e, na verdade, perante a impossibilidade de ir a todo o lado há que fazer escolhas. Pelo caminho encontrámos obras de arte para todos os gostos. Trabalhos feitos em pedra, em bambu, em madeira [dá vontade de trazer tudo e mobilar a casa assim de uma penada], em prata [ai senhores, que aquilo é de uma pessoa perder a cabeça, a carteira e desgraçar-se toda ali] e em vidro [aqui, desculpar-me-ão os mais deslumbrados, mas o trabalho feito na Marinha Grande continua a dar cartas no mundo inteiro]. Esta é sem dúvida uma terra de gente com engenho e toda esta zona é marcada por um verde e uma tranquilidade absolutamente fora de série.

 

Eis que chegámos a Ubud*. Eh pá pela vossa rica saúde. Claro que os campos de arroz a perder de vista são lindos, claro que nesta zona há resorts que a avaliar pelo aspecto exterior devem fazer as delícias de qualquer pessoa, claro que as galerias de arte espalhadas pela cidade inteira escondem o trabalho de gente com muito talento [outra nem por isso]. Agora o centro da cidade, Deus me livre. Uma pessoa até parece que está ali em Albufeira, com lojas de cangalhada aos molhos [do tipo chinês mas de terceira classe] e turistas vermelhos, de chinela no pé, eles de t-shirt de manga cavada [que nojo] e elas com uns calções curtinhos quase a ver-se as bordas de tudo e mais alguma coisa. Com excepção do mercado tradicional onde, apesar da chuva que caía em barda, ainda consegui comprar uma coberta para a cama [que em Maliana nesta altura já faz frio] bem regateada e a um preço do caneco, aquela não foi zona que, por si só, me enchesse as medidas e arranquei dali com o Budi o mais depressa que pude.

 

Quando chegámos a Kintamani ainda chovia e estava um nevoeiro manhoso que não deixou que se visse nem metade do dito vulcão e do lago circundante. Claro que se via, principalmente a partir do restaurante onde almoçámos, mas é o mesmo que visitar a Lagoa do Fogo num dia de céu azul ou num dia de chuva e neblina. Não tem nada a ver. Valeu pelo passeio.

 

Já ao fim do dia e de regresso a casa, em Denpasar, uma vez que os padres estavam para fora optei por ir aviar-me à meca do hambúrguer. Ai gente, até me vieram as lágrimas aos olhos. Quase três meses depois [sempre a comer galinha com arroz e arroz com galinha que eu até já me agonio toda] consegui alambazar uma batatinha frita e um hambúrguer. Nota dez para o Sundae de frutos silvestres que até o copito rapei com os dedos.

 

 

* O centro de Sanur é a mesma coisa. Uma Albufeira take II.




Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011
 

Acabei de chegar. À saída do aeroporto estava um senhor de meia-idade [O Sr. Budi – motorista da casa dos padres em Bali] com o meu nome escrito num papel e um sorriso enorme no rosto. Welcome, dizia-me de mão estendida. E se é um facto que na Ásia o saber receber é uma arte que se pratica recorrentemente também não é menos verdade que a Congregação do Verbo Divino é conhecida em todo o mundo não só pelo extraordinário trabalho que fazem todos os seus missionários mas, sobretudo, pela capacidade que têm de fazer com que nos sintamos em casa, seja lá onde essa casa for. E sabe tão bem, minha gente, sabe tão bem aquele abraço, aquele sorriso, quando se aterra num país que não é o nosso, cujo espaço não conhecemos, e tudo nos parece tão longe, tão diferente, tão estranho.

 

Depois de um trânsito infernal [a Rotunda do Marquês de Pombal, mal comparado, é coisa de meninos] lá atravessámos o centro de Denpasar e chegamos a casa. Eu nunca hei-de conseguir explicar porque não troco esta casa [e aquela outra onde fiquei em Díli] por um hotel de cinco estrelas. Mais do que o conforto, porque aqui os quartos primam pela simplicidade e pelo asseio, vale acima de tudo o carinho e a ternura de quem nos acolhe e nos recebe como se de família se tratasse. E é este partir do pão que me é tão caro, tão querido e que me faz querer voltar sempre.

 

Depois de uma breve caminhada pela cidade onde as pessoas, as cores e os cheiros são tão diferentes daquilo a que estou habituada, regressei a casa. O jantar, esse, é o costume. Esta gente estraga-nos com mimos e o padre responsável [Padre Paskalis Widrasta] de certeza que deve ter estado ao telefone com a minha mãe porque passou o tempo todo “coma mais um bocadinho, precisa de se alimentar”.

 

A noite caiu sobre Denpasar e amanhã, na companhia do motorista [que foi um querido e se ofereceu para me levar a passear no seu dia de folga], sou capaz de passar o dia em Ubud.

 

 

* Pessoas que um dia estejam a pensar passar por aqui, pela vossa saúde, não desatem a apanhar moedas do chão [como esta parva que vos escreve] porque, ao contrário do que se possa pensar, as pessoas aqui não têm os bolsos rotos. Não. As pessoas aqui, como bons hindus que são, deixam logo pela manhã à porta de suas casas cestos com fruta, flores, comida e dinheiro em sinal de agradecimento aos deuses em que acreditam e que adoram. Como tal, desatar a apanhar moedinhas do chão como se nos tivesse saído a sorte grande ali no meio da rua não só é uma grande má onda como não cai nada bem, ok. Valeu-me o ar de horror com que o pobre Budi me olhou para perceber [e perguntar] que alguma coisa de muito errado tinha acabado de fazer. E como com os deuses não se brinca, minha gente, à cautela voltei para trás, devolvi as moedas e ainda deixei uma nota pequenina.




Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011
 

As malas estão feitas e diz que há umas praias fabulosas em Bali e à minha espera. Qualquer coisa é perguntarem por mim na casa dos padres SVD em Denpasar. Uma gente fantástica que aceitou receber-me de braços abertos. Se não nos virmos antes, dia 17 encontramo-nos por aqui.




Terça-feira, 4 de Outubro de 2011
A minha avó sempre foi uma mulher muito à frente do seu tempo. Apesar de mal saber ler e escrever, apesar de nunca ter saído da zona onde viveu, a avó era uma mulher com mundo. Com um mundo tão grande, tão vasto, tão generoso quanto o coração que trazia dentro do peito. E isso conferiu-lhe ao logo da vida o estatuto de confidente do Bairro. Era ali, em casa da minha avó, quase sempre depois da hora de almoço, quase sempre com hora certa, que as vizinhas atracavam para carpir as mágoas que a vida lhes trazia e buscavam consolo nas palavras sábias de uma mulher que mal sabia ler e escrever mas conhecia bem essas coisas dos homens e do mundo.
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A avó nunca me pediu que saísse da sala e as vizinhas nunca suspeitaram que eu, entre bonecas de trapos e brincadeiras, escutasse tão atentamente as conversas. Desde muito cedo percebi que não há casamentos perfeitos, que não há famílias perfeitas, que não há vidas perfeitas e que as pessoas carregam fardos pesados mesmo quando passam na rua a sorrir. Desde muito cedo percebi que há maridos que amam outras mulheres, mulheres que amam outros homens e que há segredos que podem ser avassaladores na vida de quem os tem.
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Naquelas tardes falava-se de tudo. Dos amantes, dos filhos vadios e ingratos, das dívidas, das tareias, das doenças da carne e da alma, do abandono, das dificuldades, das angústias. Naquelas tardes havia quem chorasse de desespero, quem falasse em pôr fim à vida mas também havia quem chegasse e se sentasse em silêncio só para ouvir o rádio tocar baixinho, só para ter companhia.
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A avó costumava dizer-me que um segredo é assim como que um pedaço de coração que a outra pessoa confia nas nossas mãos quando a vida lhe prega partidas. Por isso é tão importante saber guardar um segredo. Por isso os nossos segredos nunca foram contados, por isso tanta gente sentiu a tua falta quando partiste. Os teus segredos, avó, estão bem guardados comigo e os das vizinhas também. Mas tem dias avó, tem dias em que eu precisava de alguém que guardasse os meus.



Sábado, 1 de Outubro de 2011
 
 

Contigo descobri que há amores cegos. Daqueles que nos aguçam os sentidos e nos projectam para uma espécie de vertigem. Sem medo, sem olhar para trás, com o melhor e o pior de nós. Ali, com o corpo todo, a alma e a pele. Amores que nos consomem e nos arrebatam. Com tudo o que temos. Em cada momento. Assim, como se cada dia fosse o único e cada hora nunca fosse bastante.




Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011
E aquelas pessoas que, quando têm de trabalhar, até parece que estão a chamar pela morte. Que nervos. E logo eu que tenho um problema de pele com gente lenta. Lenta e lerda, que uma desgraça nunca vem só.



Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

[ao telefone]

Então minha filha como vão as coisas por aí? Está tudo bem, mãe. E tens comido? Sim, mãe. Mas estás mais magra? Estou, mãe. E precisas de alguma coisa?* Não, mãe. Mas estás mais magra? Estou, mãe. Mas estás mesmo a viver sozinha? Sim, mãe. E não tens medo? Não, mãe? E estás a gostar do trabalho? Sim, mãe. Ah oh mãe, é só para dizer que para a semana vou estar sem telefone porque vou uns dias de férias ali para a Indonésia, está bem.

 

[mãe querida começa a arfar]

Mas onde é que isso fica, mas vais sozinha, mas vais como, mas vais assim. Tu e o teu irmão querem dar cabo de mim, tu e o teu irmão juraram que haviam de me matar, tu e o teu irmão ainda me desgraçam, tu e o teu irmão … e o teu pai sabe disso [Esta é que me parte toda. Sempre que nos pergunta se pai querido já sabe é sinal de que aquela cabecinha linda acabou de entrar em modo alucinação]. Ai mãe não te estou a ouvir, estou, está lá. Olha a ligação por aqui está péssima, depois falamos, sim.

 

Mãe querida acha que Timor Leste, Indonésia, República Checa e Irlanda é tudo a mesma coisa. Nada a fazer.

 

 

* Apesar de ainda não ter qualquer morada onde possa receber o que quer que seja, pergunta-me sempre o mesmo.




 

De há duas semanas para cá comecei a aperceber-me que quase todos os colegas do meu grupo [que estão noutros distritos] ou estavam de férias ou iam a caminho das ditas. Ele era Tailândia, ele era Malásia, Singapura, Filipinas. Mas que raio. Então nós ainda agora chegámos e já está tudo de abalada. Aquilo estava cá a fazer-me uma confusão. Peguei no telefone e liguei para o Suai onde está uma colega de quem fiquei particularmente amiga: olha cá o povo está todo a debandar, mas o que é que se passa.

 

Eh pá, isto de fazer o papel do corno é uma coisa muito triste. Então não é que toda a gente sabia [menos eu] que de dois em dois meses temos direito a cinco dias de férias e ainda por cima nos pagam a viagem [até um determinado valor]. Como é óbvio pensei em poupar esse dinheiro e ficar por Maliana, mas não dá. Só temos direito àquela verba se formos para fora do país e com a condicionante de termos que usufruir desses dias de descanso no prazo de um mês.

 

Ora como o meu prazo termina já no dia 17 de Outubro e para sair do distrito precisamos de pelo menos quinhentas mil assinaturas em quinhentos mil formulários [que temos que entregar com quinze dias de antecedência] lá me desdobrei em contactos, que eu gosto muito do que estou a fazer mas parva ao ponto de perder uma oportunidade destas também não sou.

 

Por isso, minha gente, no final da próxima semana lá estarei a caminho de Bali, sozinha e de mochila às costas. Vou ver se consigo ficar a dormir em casa dos padres ou das madres. A questão que se impõe é: quem tem sugestões, palpites, conhecimento de causa [e contactos] sobre o que visitar ou não em Bali. É soltar a opinião ai na caixa de comentários. Bem hajam.




Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011
 

Como é sabido a minha história com o Adolfo [vulgo chefe da segurança] só poderia ter um final trágico ou feliz. Acontece que, depois de muito bater de pé, quis o Senhor fazer prova de que até os homens mais intransigentes têm os seus momentos de fraqueza e qual não foi o meu espanto quando, na passada sexta-feira, vem o Adolfo comunicar-me que afinal e uma vez que eu já estava a viver na casa [finalmente o homem percebeu que eu não ia arredar pé] iria então optar por colocar segurança à porta daquela, 24 H por dia. A avaliar pelo ar da criatura [cólica renal sem tirar nem pôr] o ter vergado desta maneira deve-lhe ter custado o mesmo que uma valente paulada nos tim-tins. E aqui estamos nós, sem com luz [arre porra que nunca mais chegava], com água racionalizada e com quatro seguranças à porta. Até parece uma cena assim do tipo casa de ministro ou coisa que o valha.

 

 

* Eu por acaso também gostava muito de conhecer as pessoas com quem vocês trabalham para lhes poder enviar o link do vosso blog pessoal. Sei lá, acho que vocês iam amar a ideia [e continuar a publicar diariamente] e as pessoas com quem vocês trabalham também iam adorar ler aquilo que escrevem todos os dias. E não, não é preciso agradecer. Aqui só não se fazem transplantes ao cérebro de resto, com boa vontade, arranja-se de tudo um pouco.




Sábado, 24 de Setembro de 2011
Tanta gente Senhor. Tanta gente por esse mundo fora contaminada com H1N1, tanta gente a recuperar de um AVC, de uma perna partida, de uma operação ao apêndice, eu sei lá, e não há por aí uma trombose [coisa pequenina] que se chegue aos costa-marfinenses desta vida. Não é necessário que fiquem paralíticos, basta só que fiquem com a boca de lado. Ou um cão, Senhor, assim um cão solto numa qualquer esquina, um abocanhar como quem não quer a coisa, meia nádega e já chegava.



Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011

 

Isto vai para aqui uma puta de uma confusão no gabinete. Ai mãe. Neste momento somos quatro os observadores internacionais para o processo eleitoral: colega querido da Costa do Marfim, o chico-esperto dos Camarões, a rapariga da Indonésia [afinal a moça não é das Filipinas] e esta pobre e desgraçada alma que vos escreve.

 

Ora quando aqui cheguei, todos os demais já cá estavam. O primeiro a chegar foi o chico-esperto dos Camarões. Não faz ponta de corno, toda a gente se queixa do rapaz mas ninguém reporta a situação [não me perguntem porquê, não faço a menor ideia]. A segunda alma a cá vir parar foi a moça da Indonésia. Conduz lindamente, é trabalhadora e organizada mas vive em depressão vai para dez anos [foi a criatura quem me contou] debate-se com enormes constrangimentos de auto-estima fruto do excesso de peso e, de cinco em cinco minutos, tem ataques de nervos com o chico-esperto [que é o seu colega directo] porque ele não a respeita e porque ele não trabalha e porque ela é que tem que fazer tudo sozinha, e porque o tipo não aparece a horas, e porque pura e simplesmente estas duas almas não se suportam. É uma gritaria, um berreiro que nem vos conto. Um dia filmo uma cenas destas às escondidas e publico aqui, só para vocês verem.

 

O terceiro a aterrar aqui foi coleguinha querido [o meu]. Não abre a boca, reza virado para Meca sete vezes ao dia, não responde quando lhe perguntam o que quer que seja [se for homem responde, mulher é que já não], anda descalço no gabinete e, apesar de ser um matulão, queixa-se muito de dores nas costas porque assim fica com a bunda sentada no gabinete em vez de ter que ir para os subdistritos apanhar com a estopada que é viajar em estradas perfeitamente miseráveis um dia inteiro [cinco dias por semana]. Moça da Indonésia também se passa com colega querido porque ele não lhe responde.

 

Sobro eu. Que cheguei aqui sem eira nem beira, quase a dormir no meio da rua e que sempre que esta malta desata aos berros saio de fininho porque, em bom rigor, o circo é um espectáculo muito bonito mas não é para mim.

 

Ontem, enquanto almoçava com o nosso chefe [um norte-americano todo bem disposto], percebi porque é que toda a gente no escritório me trata tão bem e passa a vida a convidar-me para almoçar. As pessoas, pelos vistos, não estão habituadas a ser tratadas com respeito e simpatia e por isso acham que eu sou diferente [leia-se normal porque não padeço de nenhuma esquizofrenia macaca e não grito com os colegas e chego às 8 da manhã ao escritório e quando sou convidada para jantar em casa de alguém tenho sempre a preocupação de não me apresentar de mãos vazias em jeito de olá cá está eu]. É verdade, parece que não há por aqui muita gente de bem com a vida, consigo e com os outros. Tanto que dizia-me o big boss: Lady [e o que eu gosto que me tratem por Lady, soa-me tão bem, é fetiche bem sei] you will realize that UN has a huge percentage of vacancies for retarded people as a way to promote the employment of these people with special needs.

 

O que eu me ri. Por mim tudo bem, pá. Eu até sou a favor da solidariedade e da ajuda ao próximo, do apoio a pessoas com necessidades especiais, do fim da fome no mundo, essas coisas todas. Mas porra, tinham que ficar todos na mesma sala que eu. E se esta merda se pega. Isto preocupa-me, minha gente.




Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011
 
Tu és, sempre foste, a pessoa que melhor me conhece, aquela que me faz sorrir da forma mais genuína e a que me conforta e fortalece como nenhuma outra. És a alegria dos dias que passam, a serenidade das noites de aconchego, o riso desbragado de cumplicidade, o prazer desmedido forjado na cama e a preocupação constante. Porque amar-te também é isso, esta inquietação de te querer bem. E és a impaciência dos dias que não chegam e a saudade do tempo que não corre, e a angústia da ausência, e o frio de uma cama vazia e a tristeza de te não ver entrar em casa. E a esperança. A esperança e a convicção dos dias que vão chegar e a certeza, esta enorme certeza, de que valeu e vai valer a pena. Ou não fosses tu o meu amor maior.
 



Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

 

Depois de ter gasto uma pequena fortuna em vacinas e mais de metade do ordenado em repelentes, antes de aterrar nesta parte do globo, percebi nestes últimos dias que de pouco ou nada me serviu tamanho empenho no combate ao mosquito. Os bichos aqui são do mais assanhado que já vi e já vamos no Take II. Não há memória de uma coisa assim. Quais babas, qual quê. Bolhas minha gente, bolhas cheia de uma coisa viscosa nas perninhas da menina e uma coceira de fazer chorar as pedrinhas da calçada. Eu acordei à meia-noite, eu acordei às duas, eu acordei às quatro, eu corri pela casa, eu enfiei as pernas em baldes de água, eu esfreguei creme atrás de creme, eu enrolei as pernas num lençol, um desespero, uma aflição, uma coisa nunca vista. Já a ponderar a hipótese de atirar com os pés contra a parede [pessoas, em trinta e sete anos de idade e pelo que me é mais sagrado, jamais na vida tinha experimentado uma coceira destas] eis que o médico das NU me apresenta um tal de Eurax. Uma pomada roxa com um cheiro macaco mas que opera milagres, prodígios e maravilhas. Ontem fui trabalhar de havaianas nos pés [todos besuntados], hoje já calcei umas sandálias, amanhã quem sabe um par de ténis. É tudo uma questão de fé e de Eurax à mistura.

 

As minhas crianças não param de me surpreender. Apesar do fraco apoio que têm em casa e de alguns casos de má nutrição, tenho miúdos com uma caligrafia linda, uma vontade enorme de aprender e espertos. Alguns com mais dificuldades, é um facto, mas todos entusiasmados com as aulas. Lamentavelmente estes meninos não sabem sequer o que é um livro escolar ou uma caixa de lápis de cor [não há] e é uma pena. É uma pena porque um país que tarda em apostar na educação dos seus é sempre um país com um futuro comprometido.

 

 

Adenda:

Pessoas todas queridas que se ofereceram para ajudar [eu amo vocês]: o problema é que em Bobonaro não há correios ou serviço postal, como lhe queiram chamar. Nem aqui nem em mais nenhum distrito que não seja a capital. 

 

Em Díli procurei saber como contratar um apartado e esqueçam lá isso. Estão esgotados e a fila de espera vai para além de um ano. No entanto quero ver se consigo convencer um amigo, que tem um apartado nos CTT cá do sitio [com mais três colegas] a ajudar-me, permitindo que o tal apartado em vez de partilhado quatro possa ser partilhado por mais uma pessoa [eu]. O problema e que nós só podemos receber encomendas até dois kg e eu não estou em Díli, entendem. Ou seja, o desgraçado não só vai ter que convencer os amigos a partilharem o apartado comigo [qual penetra] como terá que ir aos correios levantar as coisas e guardá-las de modo a que no fim de cada mês [altura em que estou autorizada a ir a Díli] eu possa trazer as coisas para Bobonaro. 

 

Seja como for, cá hei-de pensar em alguma coisa. Pensem vocês também. E agora ide lá ver fotos dos meus meninos lindos, ide.




Domingo, 18 de Setembro de 2011

A justiça, aquela que a vida se encarrega de fazer cumprir, é uma coisa lixada, é sim Senhor. Porque, mais tarde ou mais cedo, toda a maledicência que se praticou, todo o mal que se fez, toda a perfídia que se empregou acabam por regressar ao ponto de origem. Depois é ver as comadres de cabecinha baixa e orelha murcha em busca da comiseração alheia. Fodeu? Agora dança.




Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
 

Na sexta-feira quando cheguei a Maliana [abençoado helicóptero que leva vinte minutos a cá chegar] fui directa ao consultório do médico das NU. Trazia os pés numa miséria. Cheios de bolhas, uma coceira medonha, caraças pá, nunca na minha vida tinha visto uma coisa assim. Diz que é um mosquito maluco que anda por aí com a agravante de as babas se poderem espalhar pelo corpo inteiro. Lá trouxe uma pomada que ando a aplicar religiosamente até hoje. Duas horas depois já me bolsava toda com as habituais dores de cabeça, fruto das diferenças de altitude, e vieram trazer-me a casa.

 

No sábado, ainda meia zonza, lá acordei com a pica toda para fazer as limpezas. Água, nem vê-la. Luz, também não. Tudo em bom, portanto. Foram só quase seis dias sem luz, sem internet e a tirar água do poço. Uma alegria. Rede de telemóvel “tem, mas não há” [foi a resposta que me deram na Timor Telecom cá do sítio].

 

Na segunda ainda nem tinha aberto a porta do gabinete já o chefe da segurança me estava a chamar. Então mas onde é que está? Eu, eu estou na minha casa, onde é que o senhor queria que eu estivesse. Então mas lá nas madres, não pode lá ficar? [e eu não te aprovo a segurança da casa, e no século XIX aconteceu isto e aquilo e eu é que sou o chefe desta merda e blá, blá, blá]. Eh pá, foda-se, que enjoo de homem. Não, não posso ficar nas madres porque estive a dormir num quarto improvisado [aquilo é a sede dos escuteiros e as freiras correram com os miúdos enquanto lá estive] e não vou largar a minha casa. Por isso o Senhor têm duas hipóteses: ou me aprova a segurança da casa ou me aprova a segurança da casa, porque eu dali já não saio. Virei costas e vim embora que eu até já me esgano toda cada vez que olho para o homem.

 

Toda a santa semana andei por caminhos que não lembram ao diabo mais velho e trabalhei que nem uma mula, mas adorei cada dia. Neste momento ando de terra em terra a acompanhar o processo de recenseamento eleitoral desta gente e desde vacas a búfalos, à porta dos centros de registo, já vi de tudo.

 

Ontem a estrica [é como chamam aqui à electricidade] lá deu o ar da sua graça e foi a alegria geral. Era ver o povo na rua a bater palmas. Uma moca. E vai de pôr a música a tocar e tudo a abastecer-se de água nuns depósitos grandes, porque hoje há estrica mas amanhã não se sabe. A verdade é que durante esta semana a água engarrafada praticamente esgotou. Aliás, muitos colegas meus durante estes dias tomaram banho nos chuveiros que temos no escritório porque ou têm poço em casa [como eu] ou banho é mentira.

 

Colega querido abalou de férias no passado fim-de-semana e nem mugiu nem tugiu. Nada. Nem uma palavrinha, nem um postalinho, nem uma merda de um e-mail a dar-me o ponto de situação do trabalho feito, nada. Uma maravilha. Não fosse eu uma desenrascada e não estivesse a outra rapariga por cá, ainda hoje andava a apanhar bonés. Mas tudo bem. Tudo bem. No regresso cá te espero, oh palhaço.

 

Amanhã lá tenho as minhas crianças à espera para uma sessão de cantigas e aulas de português.




Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

A trabalhar de dia e de noite que nem uma mula e com o corpo todo mordido e cheio de babas. Insecto não foi que eu tomo banho em repelente. Não sei que merda de bicho se apaixonou pelos meus pés que estou para aqui toda besuntada com uma pomada que aviei na farmácia do chinês. O tipo garantiu-me que isto curava tudo. Estou para ver se amanhã não me caiu a pele, os dedos ou as unhas. E não, esta malta nunca ouviu falar de fenistil gel, essa fantástica invenção da medicina moderna.

 

Amanhã, quando chegar a Maliana, vou atirar-me à casa, dar-lhe uma limpeza cá à minha maneira e mudar-me. Estou farta de andar com as malas às costas, farta de ter as coisas encaixotadas. Hoje dorme aqui, amanhã dorme ali. Mas que porra é esta. É mais a roupa que tenho para lavar do que a que tenho para vestir. Acabou-se. Quero que o chefe da segurança vá levar no cu.




Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011
 
 As pessoas, por vezes, falam muito e dizem muitas coisas. Só que tudo na vida se lê nas entrelinhas. Tudo. E de pouco ou nada serve um discurso bonito se esvaziado de conteúdo ou expressão prática. É que as pessoas, mais do que pelas palavras, medem-se sobretudo pelos gestos. Pelo que fazem ou não fazem em cada momento. Pela disponibilidade. E pelas escolhas. As pessoas também se aferem pelas escolhas. Tal como os afectos. O amor nem sempre se revela em portentosas e pontuais manifestações. O amor afere-se a cada dia, todos os dias, e sempre nos detalhes, nos pequenos pormenores. E na importância que se dá aos mesmos. Ou não. Tão simples quanto isso.



Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011

Os escritórios das Nações Unidas no Suai – distrito de Cova Lima – foram ao ar. Depois do incêndio desta noite muito pouco se aproveita. Receber notícias destas logo pela manhã é coisa que não me cai nada bem. Fica o alívio de saber que quem lá está se encontra a salvo. Diz que foi um curto-circuito ou coisa que o valha. Não sei. Acho estranho.




Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011
 

Voar num dos nossos helicópteros é uma experiência única e o Suai, visto do ar, é lindo. Quando cheguei a Díli fui directa do aeroporto para os escritórios do Secretariado [e já tinha mais ou menos uma ideia da colaboração que me seria pedida porque o chefe maior tinha-me ligado de manhã] com mala de viagem atrás e tudo.

 

Na véspera ainda consegui falar com uma amiga que está em Díli, que falou com os Padres da Congregação do Verbo Divino* e que me confirmou que poderia ficar em casa destes [até porque eu não tenho dinheiro para andar a ficar em hotéis]. Estes padres e madres são uma moca. Estão sempre sempre prontos para receber o pessoal.

 

Passei a tarde toda a trabalhar na sede do Secretariado e fui muitíssimo bem recebida pelo braço direito do director. À noite quando cheguei a casa dos padres vieram todos cumprimentar-me mais uma irmã que por aqui está de passagem e, como já vem sendo hábito, jantei lindamente. Esta malta estraga-me com mimos. Achei piada ao padre responsável: vá rapariga, alimenta-te que vens com um ar enfiado. Pudera, a pé desde as seis da manhã e praticamente sem ter almoçado, eu vinha era com um ar esganado. De fome, de cansaço e com a certeza de que este fim-de-semana muito dificilmente deverei conseguir levantar a cabeça dos papéis.  

 

* Obrigada Rui pelos esclarecimento e correcção.




Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011
 

O cabrão do Adolfo não só não me aprova as condições de segurança da casa como sempre que passa por mim parece uma cana rachada. Que nervos, pá. Em contrapartida, pelo que pude perceber, os subordinados do Adolfo não só não concordam com a decisão como devem saber bem que o tipo é daqueles maluquinhos da segurança que, quando vai na rua, vê uma potencial bomba em cada pedra da calçada isto porque têm sido incansáveis em sugerir-me alternativas de procedimento. Até o director da missão já levei a ver a casa e toda a gente a considera fantástica, menos o Adolfo, claro.

 

Eu sei qual é o problema do tipo. Primeiro ele é daqueles que acha que as mulheres não deveriam participar neste tipo de missões ou serem enviadas para escritórios compostos maioritariamente por homens e depois entende a criatura que eu não deveria ter ficado a dormir na noite em que cheguei numa casa sem previamente ter ido ao beija-mão. Temos pena.

 

Ora eu posso ser meia estouvada mas inconsciente não sou. E se há coisa que respeito é o trabalho e conhecimento alheios, como tal nunca desmereci a opinião do Adolfo que tem mais anos de NU do que eu de vida. Acontece que há uma coisa que se chama lógica e bom senso. Ou seja, identificado o problema [que não reside nas condições de segurança da casa que está murada e gradeada de uma ponta à outra – por fora e por dentro - mas sim no facto de entre a vizinhança e o dono da casa existir alguma animosidade*] é preciso encontrar uma solução, até porque eu recuso-me determinantemente a viver numa pousada onde há uma casa de banho para seis ou sete quartos [santa paciência]. Mas soluções não tem o Adolfo, não. Tanto conhecimento, tanta experiência mas soluções que é bom, é mentira. 

 

Além do mais acho que não faz sentido. Não faz qualquer sentido vir trabalhar para uma terra e não conhecer as pessoas, não estar próximo delas. Como é que eu posso, enquanto observadora internacional e legal adviser de um processo eleitoral, perceber o que se passa no terreno e quais as principais dificuldades sentidas se a minha vivência aqui se restringir ao escritório e ao hotel ou pousada. É inviável. Aliás, ainda no outro dia um colega me dizia: Eh pá tu já conheces mais gente em Maliana em cinco dias do que eu que vivo cá vai para um ano. Pudera, pá. Tu não falas com as pessoas, não vais ao mercado, não entras em lojas, sais daqui e enfias-te no hotel. Mas enfim. Cada um com a sua maneira de trabalhar.

 

Como tal, decidi que vou viver naquela casa e o tempo dirá quem tinha razão [se eu se o lingrinhas do Adolfo]. Para tal segui a sugestão do meu colega [o subordinado do chefe da segurança que me tem dado umas dicas sem que aquele se aperceba] e fui falar com o chefe do suco [é o equivalente ao nosso presidente de Junta de Freguesia] para me apresentar, explicar quem sou e o que estou ali a fazer. De seguida fui falar com o Sr. Xisto [que é líder de um grupo de artes marciais em Maliana, ensina as ditas artes a quem quiser aprender – ainda me vou inscrever nas aulas do tipo, vocês vão ver - e trabalha em casa das professoras portuguesas] no sentido de ele me indicar três homens robustos e de confiança lá do meu bairro para que, em vez de ter à porta um segurança das NU que não será bem visto porque tido como um elemento estranho, possam ser eles [enquanto locais e respeitados no bairro] os contratados para tal serviço [de segurança].

 

Depois, através dos amigos dos amigos dos amigos, lá consegui que falassem de mim e sobre a minha situação ao bispo de Maliana de modo a que este não só me receba como possa intervir junto da minha comunidade e explicar às pessoas com maior influência no bairro que o primeiro a meter-se comigo ou com a casa não só corre o risco de perder uma mão [que eu não sou de me ficar] como a seguir vai maneta para o inferno. Eh pá e se mesmo assim isto tudo não resultar, deve haver por aí quem tenha o número de telemóvel do Papa e eu chego lá. Manda-se vir o Papa e isto resolve-se.

 

Ora estava eu no meio destas diligências todas, toca-me o telefone. Era o meu chefe maior em Díli: mete-te no helicóptero e vem já para Díli. Como? Quero-te o mais rápido possível em Díli porque o Director do Secretariado [que está a preparar as eleições] precisa de uma jurista portuguesa e da lista foste tu a escolhida. Por isso faz as malas [quais malas, porra, as que ainda não desfiz?], prepara a tua vinda via helicóptero e, mais tardar, quero-te cá amanhã de manhã. Depois explico-te melhor o que vens cá fazer, mas traz roupa para uma semana.

 

Bem fiquei cinco minutos a olhar para o telefone e a fazer contas à vida. Claro que é uma honra ter sido escolhida para trabalhar com a equipa do Director em questão mas, caneco, eu tenho metade das coisas em casa das madres, o resto da roupa na minha futura casa trancada num quarto e estou praticamente sem cuecas porque não tenho onde lavar as ditas.

 

Vai de telefonar para uma das amigas daqui a pedir o enorme favor de me deixar lavar meia dúzia de peças de roupa, vai de ir lá levar a dita cuja e depois passar pela casa já ao fim do dia para a levantar [uma querida – não só se ofereceu para me lavar a roupa toda como ainda a passou a ferro. Gente desta não há por aí muita, não].

 

Nisto, chega a notícia de que um dos colegas [os do exército – responsáveis pela nossa retirada do país – que dormem e vivem mesmo ao lado das nossas instalações numa tenda enorme] tinha morrido afogado no norte do distrito que faz fronteira com a Indonésia. Ai mãe do céu, que confusão. Primeiro estava morto, depois já estava vivo e a caminho do hospital, depois já tinha morrido outra vez, um filme. O helicóptero arrancou disparado para o ir buscar, tudo à espera de notícias, uma coisa nunca vista. O colega morreu mesmo [num acidente parvo, como todos os acidentes] e quando o helicóptero o trouxe para Maliana por forma a que os demais colegas pudessem despedir-se dele, foi comovente. O corpo seguiu depois o seu caminho até Díli rumo à terra daquele, onde o esperaria a família.

 

Pelas dez da noite quando cheguei a casa das madres ia mais para lá do que para cá. Programei o despertador para as seis da manhã e atirei-me para cima da cama.

 

 

* Quando o dono da casa decidiu construir a dita naquele bairro, em vez de ter recrutado gente local para trabalhar, trouxe empregados de outras localidades e isso não caiu bem ao povo [eh pá coisas cá desta gente] e a verdade é que em 1999 um carro das NU foi vandalizado à porta da dita casa e já em 2010 ocorreram dois incidentes com as pessoas que lá moravam [carros destruídos e algumas ameaças] porque a população determinou [foi o que me contaram] que a casa nunca seria ocupada. Ora eu não sei se é bem assim ou se é com mais molho. Sei que em 1999 a casa não estava gradeada e com muro à volta e que hoje está. E sei que sempre que passo no bairro as pessoas me tratam lindamente. Talvez porque tenha pedido a um senhor de idade [Sr. Nuno] para me limpar o jardim, que estava imundo, a troco de uns quantos dólares e tenha acarinhado a Abé, uma miúda que vive duas casas acima e a quem o dono da casa pediu para fazer as limpezas antes e depois da pintura [só queria que vocês vissem o ar de felicidade da rapariga quando lhe ofereci um par de brincos].

 

Sei também que, desde 2011, esta foi convertida numa missão de família [ou seja as pessoas que aqui estão podem mandar vir os filhos e as mulheres ou maridos, quem quiserem] e isso significa que feita uma análise exaustiva da situação do país se considerou que o nível de insegurança diminuiu drasticamente quer o Adolfo queira ou não queira.

 

 

Pedido clamoroso:

Senhores dos Telejornais pela vossa rica saúde, pá. Os meus pais iam morrendo do coração, caralho. Vamos lá a ter calma, sim. Porque um sismo na Indonésia é um abanico em Timor. E falar em tremor de terra em circunstâncias destas é mesmo uma grande estupidez que só serve para deixar as pessoas com os nervos em pé.




Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011

Hoje é feriado por aqui mas a hora do pequeno-almoço não muda. Sete da manhã. Quem está, está. Quem não está, estivesse. Entre o pão fresco da manhã e o chá, a madre superior perguntou-me se não gostaria de ajudar as crianças daqui ensinando-lhes português. São maioritariamente meninas em idade escolar [ensino básico]. Tudo isto a propósito da conversa de ontem à noite em que lhe dizia que, para mim, uma das principais formas de se quebrar o ciclo de pobreza passa precisamente pela educação.

 

Ora não sendo professora a verdade é que dei explicações durante anos e sempre gostei de o fazer. Por isso mesmo aceitei logo ali o desafio. Claro que poderia contar comigo. Não tanto para ensinar a língua [para isso iria falar com uma professora portuguesa – uma das amigas que já fiz por aqui] mas principalmente para ajudar nos trabalhos de casa, contar uma história, brincar com os miúdos, etc. Resumindo e concluindo, ainda nem acabei de chegar e já arranjei um bando de catraios para tomar conta.

 

 

* Diz que houve para aqui um sismo [não sei porque estamos sem luz e não tenho acesso a televisão nem tinha os telemóveis carregados]. Alguém me explica o que se passou. É que eu não dei por nada.




Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

 

Às sete da manhã já se rezava “Avé Maria, cheia de Graça” ao pequeno-almoço. Ai pessoas, pão quentinho. Há pão* em Maliana e eu não sabia. Regalei-me ali que nem uma perdida e só não comi mais por vergonha. Às oito já o primo Lucas [que trabalha no Hospital] estava à porta das madres para me levar para os escritórios das NU. Quando lá cheguei, mais de metade do pessoal ainda não tinha entrado ao serviço. Estavam para lá um romeno que trata da segurança e um indiano da informática que me receberam muito bem.

 

Quando começou a chegar o povo constatei, mais uma vez, que há pessoas [em todo o mundo] que têm a puta da língua maior que a boca [colega querido] porque toda a gente [até o Director] comentava a casa que eu tinha encontrado. Como era possível e ainda por cima àquele preço e ele que estava farto de viver no hotel e já tinha procurado por todo o lado e blá, blá, blá. E eu ali com um sorriso amarelo pronta para esganar colega linguarudo.

 

Ora uma das coisas que temos que pedir assim que chegamos aos distritos e encontramos casa [ou quarto] é uma deslocação da equipa de peritos de forma a que as condições de segurança da casa sejam avaliadas e aprovadas. Como tal, fui chamada ao Gabinete do Chefe da Segurança [um velho lingrinhas com ar de Adolfo] que conjuntamente com o tal romeno e um colega timorense me começam a contar histórias.

 

- Pois sabe, já nos disseram que conseguiu casa mas pela descrição do local não nos parece seguro e no passado já houve colegas seus ali que foram assaltados e foram isto e foram aquilo e por isso não aprovamos a zona e teca-teca.

 

- O Sr. Chefe da Segurança queira desculpar, mas já viu a casa?

 

- Não mas conhecemos a zona e aqui o fulano de tal [aponta para o colega timorense] é de cá e garante que ali há grupos de artes marciais [um dos principais potenciadores de conflitos no país inteiro].

 

Passei-me. Passei-me toda da cabeça aos pés e virei-me para o timorense: Ouça cá, mas acha que o Padre Ernesto [quem me ouvir falar do homem até pensa que a criatura andou comigo ao colo mas que se lixe, a ideia é mesmo essa] me ia recomendar uma casa numa zona que não fosse segura, acha. Acha mesmo que a família do Padre Jaime, de quem sou prima, me ia colocar a viver numa casa sem condições [em jeito de tiras-me a casa e arranco-te os olhos à dentada, pá].

 

Como o timorense ficou mudo interveio o Chefe da Segurança: Sabe, os padres percebem de missas e eu de segurança [do tipo eu é que mando nesta merda toda]. E vocês escolheram ser voluntários e como tal a ONU é responsável pelo que vos acontece [tens cá uma piada, pá, quando andei aí um fim-de-semana inteiro meia perdida ninguém se preocupou com a minha segurança] e blá, blá, blá. Por isso se não quiser acatar as nossas orientações e alguma coisa lhe acontecer, nós não pagamos nada [estava a referir-se ao seguro de vida**]

 

- Tudo bem, faz todo o sentido [ironic mode]. Como a ONU é responsável pela minha segurança, se a casa não reunir as condições necessárias eu não fico lá. Mas aí o Sr. e as NU são igualmente responsáveis por me ajudarem a encontrar uma solução alternativa porque eu já vi, sozinha e sem a ajuda de quem quer que fosse [incha], mais de dez casas em Maliana e não procuro nem mais uma. Portanto, diga-me depois o Sr. onde é que vou ficar a viver e quando é que posso mudar.

 

Ora o Chefe da Segurança [com ar de Adolfo] de duas, uma: ou nunca apanhou quem lhe falasse assim e lhe fizesse frente ou deve ter mesmo acreditado que eu não ia mexer nem mais uma palha e como tal tinha que encontrar casa para mim porque o discurso, esse, mudou radicalmente: bom, o melhor é vocês irem lá ver [apontava para o timorense e para o romeno] e tirarem umas fotos e depois na quinta-feira [amanhã e quarta temos feriados por aqui] damos ou não o aval final.

 

Quando cheguei a casa já os homens andavam a pintar. Ia-me apagando toda. A entrada da casa estava a ser pintada de verde alface e estava tudo programado para seguirem com o rolo e as trinchas casa adentro. Verde alface, senhores, se alguma vez eu ia viver numa casa com quartos verde alface, credo. Disse ao pintor para estar quieto enquanto despachava os colegas da segurança.

 

O Romeno estava embasbacado. Como é que era possível eu ter encontrado uma casa tão boa quando ele que está cá há um mês já tinha procurado por todos os lados e ainda continuava enfiado num quarto manhoso de hotel. Sabes, disse-lhe, tenho cá os meus contactos e quando a segurança desta casa for aprovada [como vês fica entre uma escola primária de referência e as instalações de uma ONG] nós depois podemos encontrar uma casa boa para ti [mega smile em jeito de diz lá ao Adolfo do teu chefe que o que ele quer sei eu mas se pensa que me fica com a casa está bem quilhado]. Agora isso só vai acontecer se eu ficar com esta casa, entendes.

 

Ao timorense, a esse, chamei-o à parte e só lhe disse: o Padre Ernesto vai ficar muito contente quando souber que me tiraram esta casa. Vai, vai. Depois dos contactos e do trabalho que ele teve, acho que vai ficar mesmo contente quando eu lhe aparecer à porta da Igreja com as malas na mão.

 

Bom, lá para o final da semana já sei se fico com esta casa ou se o Adolfo [não é o nome da criatura mas já está baptizado] levou a dele avante.

 

Nisto chega-me o Armando, com a sua malinha de mão [sim, é exactamente isso que estão a pensar, doida que só ele], radiante por ver o efeito do verde alface que houvera escolhido. Peguei no colega timorense e disse-lhe em inglês: olha, ajuda-me lá aqui a traduzir para tétum.

 

Oh primo Armando, pela sua rica saúde. Verde alface, primo. Quartos pintados de verde alface. Vá, no hall de entrada não me agrada muito mas já está, já está [depois tiro fotos para vocês verem]. Agora na sala e nos quartos é que nem pensar, tinha pesadelos todas as noites.

 

Conversa para aqui, conversa para ali. Eu queria creme, o Armando queria azul. Avancei com o amarelo clarinho, ele com um laranja que valha-me Deus. Ficámo-nos pelo creme depois de muito bater de pé.

 

De seguida, minha gente, não sei se da diferença de altitude [ter saído de perto do mar e de me ter ido enfiar no meio da montanha] se dos nervos ou do cansaço [ou tudo junto] pregou-se-me uma enxaqueca daquelas que nem conseguia abrir os olhos. Valeu-me o chá das madres e uma tarde de descanso. Às sete, ao jantar, tinha uma canja à minha espera e uma posta de peixe cozido [um verdadeiro luxo – o peixe - por estas zonas e coisa rara mas que a madre houvera pedido para irem buscar ao distrito vizinho – Liquiçá]. Podia habituar-me a estes mimos com facilidade. Irritante mesmo só a falta de luz. Já bem basta não termos electricidade durante o dia quanto mais à noite. Caneco.

 

 

* Quando cá estive não tinha encontrado pão em lado nenhum porque não é alimento que faça parte dos hábitos desta gente, já o arroz, credo pá, esta malta começa a comer arroz de manhã cedo e só acaba lá para a noite, uma agonia.

 

** Seguro de vida, esse, de que és beneficiário, ficas a saber. Assim sendo e caso o mesmo venha a ser accionado gostaria que o valor fosse dividido em cinco partes iguais e depositado nas correspectivas contas bancárias. Já agora, estás a pensar regressar de Marrocos ainda este ano. Quando chegares, avisa.




Domingo, 28 de Agosto de 2011

Acordei às seis da manhã com os galos a cantar. Raça de bicho, pá. Quando começo a olhar para a casa já à luz do dia, ai mãe, nem sei o que vos diga. Água não tinha, limpei-me com toalhetes que tinha levado. Tudo a meter nojo. Bichos com fartura. Teias de aranha era mato. Bom, lá respirei fundo, peguei numa folha de papel e vai de fazer exigências: quero uma limpeza total, quero a casa pintada por dentro, quero redes novas em tudo o que é janela [que eu não estou para dormir com lagartos dentro de casa], quero um roupeiro, quero um lavatório na casa de banho e quero uma tampa da sanita nova [eu sou um bocadinho nojenta com as sanitas, bem sei].

 

Nisto chega o primo Lucas e mostrei-lhe a lista [o coitado olhou para mim em jeito de ai meu Deus só me faltava esta, uma prima maluca lá de Portugal] e disse-lhe: primo, isto é muito simples, ou o primo Armando faz estas obras ou pego nos tarecos e vou-me embora. Isto assim não dá [nisto abro a porta do quarto e lá estava o lagarto à espreita que o homem até deu dois saltos para trás]. Se as obras forem feitas eu coloco aqui um gerador* que depois fica cá em casa quando me for embora. Caso contrário vamos procurar outra casa já hoje.

 

E assim foi, lá fomos ter ao centro da cidade com o primo Armando para negociar as benfeitorias. Bom, um filme do caneco. O Armando só fala tétum, eu só falo português e o primo Lucas a servir de tradutor. O que o primo Armando não sabia é que eu tenho uma costela de cigana. Acabei por conseguir tudo o que queria com excepção do roupeiro [este comprámos a meias depois de negociarmos com o chinês da loja do lado um mega desconto de 100 USD].

 

Como a casa ia para obras acabei por vir passar a noite junto das madres, num quarto pequenino mas muito asseado, onde o jantar se serve às sete da noite [jantei tão bem minha gente] e o pequeno-almoço às sete da manhã.

 

 

* Numa terra onde só há luz [quando há] das seis e meia da noite às seis da manhã, um gerador é praticamente um artigo de luxo e rentabiliza qualquer casa. Acontece que o dito não me vai custar um tostão porque das poucas coisas a que voluntário tem direito é ao reembolso [até 500 USD] do valor pago por este equipamento. Menos mau.




Sábado, 27 de Agosto de 2011

 

Ao meio-dia lá partimos de Díli. Deixei para trás um mar imenso e trouxe comigo os abraços de quem, só me conhecendo há meia dúzia de dias, tão carinhosamente me acolheu quando cheguei a esta terra. Seguiram-se seis horas de viagem com o mesmo ritual se sempre: eu de Ipod enfiado nas orelhas, colega querido quedo e mudo, só que desta vez com o carro atolado de caixotes e malas e sacos e saquinhos.

 

Quando cheguei a Maliana tinha duas pessoas à minha espera [amigos dos amigos dos amigos - desencantados à pressão ontem durante o dia] para me mostrarem as casas que previamente tinham seleccionado. Ambos, pelo que pude mais tarde perceber, figuras de prestígio cá da terra: um é professor universitário na Universidade de Timor e o outro irmão de uma cunhada de uma amiga que me apresentou a estes dois últimos como sendo prima dela lá de Portugal [o Sr. Lucas]. Ora como aqui basta ser primo de um para se ser primo de todos, neste momento sou prima de uma das maiores e mais influentes famílias de Maliana e, como tal, sou também prima do Padre Jaime [amigo do Padre Ernesto] uma jóia de senhor que não tive oportunidade de conhecer pessoalmente mas que tratou logo de me dar os contactos de algumas pessoas daqui.

 

Só casas*, de atacado, vi para aí umas sete [umas estupidamente caras outras que de casa só têm mesmo o nome e com uma enorme boa vontade], colega querido já bufava com o carro pejado de caixas, eu já desesperava até que, num daqueles momentos de clarividência, virei-me para o “primo” Lucas [senhor já de idade e que assumiu o papel de anfitrião da família de uma forma absolutamente extraordinária]: Oh primo, falaram-me [a tal rapariga australiana que me recebeu lindamente aquando da primeira vez] num tal de Armando que diz que tem aí umas casas mas que não quer arrendar, o primo por acaso não o conhece. Ora não só conhece como é da família [sai mais um primo], embora de um ramo mais afastado mas nem por isso menos primo que os outros. E lá fomos nós.

 

Claro que o Armando não só me arranjou logo ali uma casa como ainda teve uma especial atenção no valor da renda [um misto de preço para a família e preço para voluntário]. Bem, quando vi a casa ia-me caindo tudo. Enorme, de tijolo [factor muito importante por estas bandas], toda vedada com um muro e grades, com casa de banho [leia-se sanita – coisa que é um luxo – e não, não estou a brincar] com uma mini cozinha, eh pá, do melhor que já tinha visto por aqui. Estão a ver o Palácio da Pena. Tal e qual. Apesar de a casa estar imunda, cheia de teias de aranha e a meter nojo percebi que ali sim, ali depois de uma grande limpeza poderia vir a chamar àquilo casa. Virei-me para colega querido e disse-lhe “encosta aí que eu daqui já não saio”.

 

Lá meti os caixotes em casa, colega querido foi à vida dele que já se fazia tarde e o primo Lucas também que a maratona tinha sido longa. Nessa noite para além de sapos, osgas, lagartixas e lagartos [foda-se, apanhei um lagarto enorme dentro do quarto como nunca tinha visto. Tranquei o bicho lá dentro e barriquei-lhe a porta com todas as malas que tinha], para além de pássaros com um cantar esquisito [tudo ali de volta da casa que mais parecia assombrada] lá consegui passar a noite que vinha morta de cansaço.

 

Dormi como se dorme na tropa: com a roupa que trazia vestida, enrolada num lençol lavadinho que me emprestaram em Díli e a catana aos pés da cama.

 

 

* Pessoas intrigadas com a situação:

Em Maliana só há um hotel [leia-se coisa para aí com uma dúzia de quartos e completamente ocupado por malta da ONU – os primeiros que cá chegaram] e uma pousada com seis quartos e uma casa de banho [nem quero imaginar a animação de manhã, ali tudo com a pasta de dentes na mão em amena cavaqueira à espera que a dita vague]. E não, a ONU não procura nem arranja casas nem para voluntários nem para funcionários. Apenas cobre as despejas de alojamento. No primeiro caso até um determinado valor, no segundo porque lhes paga o ordenado e a partir daí as pessoas governam-se como em qualquer país.

 

Agora, claro que há distritos em que quem já lá está teve a preocupação de ajudar quem chegou a procurar e encontrar casa. Infelizmente não foi o meu caso e daí ter tido que me desenvencilhar sozinha. Acresce a esta situação o facto de Maliana fazer fronteira com a Indonésia e também por isso grande parte das casas terem sido queimadas naqueles tempos mais conturbados e não terem ainda sido reconstruídas.

 

Aliás se fosse a própria Organização a ter que encontrar casas para todos os seus colaboradores [efectivos, contratados, peritos, voluntários] estaríamos só a falar da maior agência imobiliária do mundo inteiro porque de Timor ao Sudão, da Nigéria ao Afeganistão, há gente das Nações Unidas em todo o lado. E com isto espero ter esclarecido os espíritos mais inquietos [e não, não estou a falar daquelas pessoas verdadeira e genuinamente preocupadas comigo a quem tanto agradeço o carinho mas daquela malta parvinha que acha que uma pessoa anda aqui no cu de Judas à procura de casa para dormir só porque é giro, sei lá].




Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

Casa para morar ainda não apareceu mas já tenho uma catana. Acabadinha de ser entregue por um amigo.

 

Mas tu és doido, eu quando te perguntei se me arranjavas uma coisa destas estava no gozo [e tinha acabado de chegar de Bobonaro – como tal, um bocado arrasada dos nervos]. Vou agora andar aí de catana na mão, tu não regulas bem. Mas depois lá me dei por convencida. Isto nunca se sabe. Nem que seja só para a exibir, assim ao longe, ou então mostrar ao coleguinha querido em jeito de sabes, lá na minha terra nós palitamos os dentes com isto [dito com ar de Sandokan].




 
A pessoa que ia emprestar-me a casa percebeu ontem, depois de quase um mês de conversa para cá conversa para lá, que afinal eu preciso mesmo é de uma casa em Maliana e não na cidade de Bobonaro [o distrito, esse, é o mesmo]. Jura, pá. Conta-me lá o que é que mudou neste mês, adquiriste mais três neurónios, foi. Que nervos. E eu feita estúpida a comprar tarecos todos pipis.

 

Depois, com base na ajuda de uma amiga [de uma amiga de uma amiga], lá se descobriu uma casa que, parece, estar vaga. Ora como os homens daqui têm problemas em negociar com mulheres [diz que somos assim uma espécie culturalmente inferior, sei lá, a verdade é que as criaturas têm problemas] lá liguei para um amigo de um amigo que fala tétum para negociar o preço com o tipo. 500 USD por mês. 500 USD por mês, por especial favor, lá no fim do mundo. Só podem estar a brincar comigo. Até parece que ando à procura de um dúplex em Díli. E o ar do tipo: oh minha amiga, 500 USD [sem fogão, sem frigorífico, sem mobília, sem os tomates, sem nada] e é se queres. Acho piada a esta malta. Tudo muito necessitado, toda a gente a precisar muito mas entre ganharem 400 e não ganharem nada preferem a última versão do negócio.

 

Ainda telefonei ao Padre Ernesto. Primeiro não me atendia. Depois disse-me: ah estou aqui em Díli e só volto para a semana. Oh criatura de Deus, tu até podes ganhar raízes e definhar na capital, não estou nem aí, eu só quero mesmo é uma casinha, um quarto, uma merda qualquer onde largar os caixotes e dormir.

 

Em suma, estamos [eu e as sete caixas de papelão, mais as três malas e uns quantos sacos de plástico] com uma carrada de nervos em cima e continuamos desesperados à procura do contacto das duas congregações de madres que diz que há lá por Maliana. Quem tiver por aí o número de telefone do Bispo de Maliana que se chegue à frente, ou o contacto do tipo que manda lá no distrito, eh pá qualquer pessoa que possa ajudar. Neste momento estou por tudo [menos fazer bóbós a padres que isso, santa paciência, uma pessoa ainda mantém - por enquanto - uns certos padrões de exigência] porque, amanhã, tenho mesmo que encontrar sítio para dormir. Caso contrário, vou ter as ruas de Maliana por minha conta, coisa que dito assim não me soa lá muito bem.

 

O mais hilariante no meio disto tudo é que os nervos dão-me para ter ataques de riso intervalados com um desespero, quase pânico. Só por aqui já podem ter uma ideia do ar esgazeado com que ando.




Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011

 

Afinal ainda não é desta que me vou. Nas palavras do Doctor Petrovsky, I will survive a esta virose marafada dentro de uma semana, mais coisa menos coisa. A questão agora é outra. Vocês lembram-se das três supostas casas em Maliana que eu já tinha encontrado. Pois bem. Uma afinal já não vai ficar vaga porque as pessoas mudaram de ideias, a outra já está ocupada e a terceira que era de um familiar de uma amiga [de uma amiga] e que era onde [tudo indicava] eu iria ficar, olhem nem sei o que vos diga.

 

Quando regressei a Díli fui almoçar com essa amiga [de uma amiga] que me garantiu que esse tal familiar não só tinha uma casa vaga e nova, a estrear, no centro de Maliana como a dita estaria mobilada e aquele [o tal familiar] teria muito gosto em emprestar-me a casa para morar, durante o tempo que fosse preciso, sem cobrar qualquer renda porque afinal era um gosto poder ajudar os amigos dos amigos e blá, blá, blá. Fiquei radiante e grata, pois com certeza.

 

Face à oferta feita e atendendo a que a casa apenas tinha o básico [cama, uma mesa e umas cadeiras e acho que um roupeiro – como sabem eu saí de Maliana sem ter visto qualquer casa e tudo o que encontrei já foi em Díli] comprometi-me a comprar as coisas do dia-a-dia: pratos, copos, talheres, uma torradeira, lanternas, lençóis e uma colcha, toalhas de banho, essas coisas de uso diário e procurei, dentro das minhas possibilidades que não são muitas, comprar umas coisas bonitas por forma a que no dia em que me viesse embora as deixasse ficar lá na casa em sinal de gratidão e reconhecimento pela ajuda dada. E assim foi. Andei toda a semana num virote a comparar preços e a correr Díli de uma ponta à outra porque se num lado há copos, já não há pratos e se no outro há pratos, já não há panelas, e por aí fora.

 

Agora, quase a regressar ao distrito [vou este sábado de manhã], já estou farta de telefonar e de enviar mensagens e nada. Ninguém me atende, ninguém me responde. Nem um postalinho, nem uma cartinha, nada. Eh pá, chamem-me ingénua ou otária mas eu quero acreditar que as pessoas têm palavra e que isto tudo não passará seguramente de um mal-entendido qualquer mas, ao ver o sábado a aproximar-se, confesso que, de vez em quando, me vem à ideia aquela imagem do “dormir debaixo da ponte” agarradinha aos caixotes de papelão [que entretanto vou levar daqui comigo com os tais pratos e panelas e o camandro].

 

Em busca de um plano B, já liguei para o Padre e nada. Também não me atende. Ai o caroço, pá. Vocês querem lá ver que eu de putativa arrendatária de três casas passo outra vez a desalojada. Mas que grande porra esta. Já me estou a passar [again].




Terça-feira, 23 de Agosto de 2011

Vai para dois dias que me sinto esquisita. Um peso no peito, sempre muito prostrada, o corpo a pedir cama, umas febres permanentes. Ainda pensei que fosse uma constipação e se estivesse em Portugal, francamente, não me preocuparia muito. Só que não estou e por não haver registo de melhoras hoje fui bater à porta do consultório médico lá nas nossas instalações. Adorei o médico: Doctor Igor Petrovsky. É da Ucrânia e o semblante fechado e carrancudo abriu-se com um enorme sorriso quando lhe disse que era de Portugal [tenho lá família e amigos, contou-me]. Fizemos logo ali a festa. Pergunta daqui, pergunta dali e o melhor mesmo é ires fazer análises para despistar malária ou dengue. Pelos sintomas [e torcia o nariz], bom, quero ter a certeza. Vais ali em frente fazer análises [as nossas instalações têm tudo – até laboratório de análises- fiquei banzada], depois vais direitinha para a cama que não te quero a apanhar este sol e a seguir passas cá logo para levantares os resultados e vermos o que se passa.

 

Oh Doctor Petrovsky, por favor, não me vai obrigar a vir cá de novo, pois não [já a revirar os olhos e a bater com a mão no peito com ar sofrido – sim, eu sou das que com uma pontada de febre parece que fica às portas da morte]. Olhou para mim e riu-se. Só porque és de Portugal, vou dar-te o telefone daqui. Liga-me depois das cinco e dir-te-ei o resultado.

 

E aqui estou eu, enfiada na cama, com calor, com frio, com calor, com frio, a beber água que nem um cavalo e à espera das cinco da tarde para saber que raio de coisa é esta que se me entrou no corpo.




Domingo, 21 de Agosto de 2011

 

É verdade sim, as pessoas não deveriam escrever e-mails às três da manhã quando consumidas pelo temperamento e contristadas de amargura, independentemente da razão que lhes assiste, tanto mais quando carregam nos genes uma bestialidade acentuada.

 

Devíamos, é um facto, ter todos essa extraordinária capacidade de passar noites em claro, elaborar mentalmente o discurso de abordagem à situação em causa e, com o chegar da alvorada, alcançarmos por essa via [a da meditação noite fora] um nível de racionalidade e serenidade conducentes com a maturidade que supostamente nos assiste em função da idade que já vamos tendo.

 

Acontece que as pessoas não são todas iguais. Feliz ou infelizmente, não somos todos iguais. Por isso mesmo, um rasgo de mau génio não nos define. Não define quem somos nem aquilo que sentimos ou o quanto gostamos de alguém. Quanto muito, exprime a insegurança e o desconforto sentidos naquele exacto momento. Devias saber melhor.

 

Daí que o acto de colocar uma reacção intempestiva ao mesmo nível que um padrão de comportamento reiterado, tentando extrair qualquer comparação, não só não é exequível como não passa de uma tremenda deslealdade.  Lamento.




Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

 

Se as pessoas se metessem na vidinha delas e guardassem toda a sabedoria do muito que opinam sobre os outros, aplicando tamanha sapiência na gestão do seu dia-a-dia, em vez de andarem por aí de língua afiada e estendida em direcção ao que se passa em casa alheia, o mundo seria seguramente um sítio tão mais despretensioso. A sério.




Quinta-feira, 18 de Agosto de 2011

No distrito de Cova Lima [que faz só fronteira com Bobonaro] 70 casas foram incendiadas e duas pessoas mortas [um civil e um polícia]. Isto começa bem.




Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011

 

Lamentavelmente não deixa de ser irónico o contraste entre a preocupação e o carinho consagrados por gente que mal me conhece [são amigos dos amigos dos amigos dos amigos] e o silêncio de outros, daqueles de quem tanto esperei e a quem tanto quis. E sim, estou a falar de ti. Estou precisamente a falar de ti. Nem sabes o quanto lamento e o quanto me custa. O teu silêncio, a tua atitude. O teres desistido de mim, assim, com tamanha desfaçatez e facilidade. Só que isto passa. Um dia isto passa. Mas há dias em que ainda me custa.




Terça-feira, 16 de Agosto de 2011

Há por aí uma teoria, que me foi dada a conhecer por uma querida amiga, nos termos da qual está comprovado que entre pessoa A e pessoa B, no limite, distam sete pessoas pelo meio. Ou seja, a dita teoria assenta na ideia de que X conhece Y que conhece W que conhece Z, e por aí fora, até chegar ao indivíduo em questão. Consequentemente, a fazer fé neste raciocínio, entre mim e o Primeiro-Ministro de Timor só distam sete pessoas.

 

Ora foi precisamente a esta ideia que me agarrei [e ao telefone também] no sábado à noite quando, já em desespero de causa, percebi que tinha que me desenvencilhar sozinha e rapidamente encontrar sítio para dormir em Bobonaro.

 

Confirma-se a dita teoria. A alternativa passa por eu ter os melhores amigos do mundo [o que também é verdade], os mais melgas e os mais insistentes que se atiraram ao telefone e não descansaram enquanto não aparecesse uma casa onde eu pudesse ficar. Neste momento já vamos em três casas no centro de Maliana. Menos mau. Lá chegando, logo escolho.




Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011

 

Hoje, pelas oito da manhã, já colega querido estava à porta da casa onde eu houvera ficado. Despedi-me da Anna [a rapariga australiana que me recebeu] com um abraço cheio de gratidão. Não fosse ela e a minha passagem por Maliana teria sido bem pior. Entrei no carro e disse bom dia. Mais do que isso não me apeteceu. Quando chegámos aos escritórios da ONU já lá estava o Francisco a tratar da papelada e à espera do chefe para que este pudesse autorizar o meu regresso.

 

Assim que chegou, o chefe pediu para me chamarem. Quando entrei no gabinete dele, o Sr. apresentou-se [é norte-americano e uma simpatia] e disse-me lamentar todo este incidente. Estivemos um pouco à conversa e, já de saída, quando lhe perguntei onde é que poderia tomar um café e comprar qualquer coisa para comer nas nossas instalações, olhou para mim com ar de “ai rapariga, nós aqui não temos nada disso”. Ao que parece cada um tráz as suas refeições de casa e café num termo. Ok, tudo bem, não tem problema. Assim já fico a saber. Nisto o chefe abre a mochila e tira duas caixas, uma com bolachas e outra com ovos cozidos e estende-me ambas dizendo "eu também ainda não tomei o pequeno-almoço por isso sente-se aí e tire uma bolacha". Ora eu cá para comer não me faço de rogada por isso agradeci a gentileza, sentei-me na cadeira que me foi indicada e vai de comer duas bolachitas do chefe.

 

Nisto chega o tipo dos Camarões. Bem só queria que vocês vissem a azia do moço e o ar de “olha-me esta mula, chega aqui, põe esta merda toda em alvoroço [de certeza que já tinha ouvido poucas mas boas da nossa chefe de Díli, porque ela é uma querida mas não brinca em serviço] e ainda senta o cu no gabinete do Boss e come-lhe as bolachas”. Atirei-lhe com um sorriso magnânimo e um radioso olá, como estás [eu sei, eu sei, este tipo só não me vai arrancar a pele se não puder mas eu divirto-me com estas coisas, pá, que querem].

 

Resumindo e concluindo, papelada tratada, chefe preocupado com o facto de eu não ter encontrado sítio para ficar e a dar orientações para que, aquando do meu regresso, toda a gente tentasse ajudar-me e lá viemos embora para Díli [eu, colega querido e um outro a quem demos boleia porque tinha de vir à capital].

 

Durante toda a viagem colega querido não abriu a boca, com excepção dos já típicos esgares de raiva em relação aos timorenses [estúpidos para aqui, burros para ali – se vocês soubessem a brotoeja que isso me provoca, ai mãe]. O rádio do carro também não se liga porque, sei lá, deve fazer interferência com alguma frequência virada para Meca ou o catano e então não há música nem notícias para ninguém. Ainda assim, à hora de almoço, colega querido lá encostou o carro para que eu e o outro pudéssemos almoçar. Foi a minha sorte. Quer-me cá parecer que se viesse sozinha com ele a questão do almoço não teria sido pacífica.

 

Quando chegámos a Díli perguntei ao colega que vinha connosco se tinha onde ficar. Disse-me que sim. Perguntei-lhe também se tinha com quem jantar. Disse-me que não. Convidei-o então para jantar comigo e com outros colegas meus porque, sabes Phill [é o nome do tipo], é extremamente desagradável chegar a um sítio onde, supostamente, temos colegas e ninguém se preocupar connosco. Por isso mesmo, enquanto eu estiver em Díli não haverá colega que não possa contar com a minha ajuda e apoio. Quanto a ti [virei-me para colega querido] uma vez que estás a cumprir o Ramadão calculo que tenhas outros planos mas, ainda assim, se quiseres acompanhar-nos terei todo o gosto nisso. Colega querido engole em seco e declina o convite embasbacado.

 

À noite lá juntei os meus amigos daqui para levar o outro a jantar [a um restaurante todo catita onde se come lindamente e o preço é baratinho] e no regresso, porque já não havia táxis, ainda pedi a um dos meus amigos que fizesse o favor de ir colocar o tipo ao hotel porque estava completamente fora de questão deixá-lo ali no meio do nada e obriga-lo a ir a pé. Colega desfez-se em agradecimentos e eu só lhe respondi, não tens nada que agradecer, no meu país nós gostamos de receber e tratar os outros com respeito [incha e não relincha e leva lá o recadinho à rapaziada].




Domingo, 14 de Agosto de 2011

 

Se eu fosse uma pessoa de choro fácil, ontem à noite, muito provavelmente teria tido uma crise de nervos de todo o tamanho. Acontece que não sou [embora por breves segundos tenha equacionado a possibilidade de atravessar a fronteira rumo à Indonésia e de me ter posto a andar daqui para fora].

 

Hoje levantei-me eram sete da manhã, tomei banho de água fria com um púcaro [aqui não há nem água quente nem essas modernices de chuveiros. Tira-se a água de um contentor de plástico e usa-se ou púcaro ou um balde] e declinei educadamente o café da dona da casa [ai senhores, a moça é uma querida, que é, mas tem uma ideia completamente estranha do que é um café] dizendo-lhe que ia ao centro da cidade tomar o pequeno-almoço [até porque sabia que ela tinha um trabalho académico para entregar e não quis estar ali a empatar a rapariga].

 

Ora estava eu a descer a encosta da montanha, rumo à cidade, quando vejo o carro da ONU com colegas dos Camarões e Honduras, todos frescos e felizes da vida. Olá. Olá. Onde vais. Vou ali ao centro da cidade ver se consigo tomar pequeno-almoço e tentar descobrir um sítio para ficar. Ah porreiro para ti, nós vamos buscar as nossas amigas de ontem e vamos passear.

 

Nem um queres vir, nem um queres que te deixe em algum lado, nem um precisas de alguma coisa, nada. Rigorosamente nada. Então adeusinho e fica bem. Mais, quando perguntei ao tipo dos Camarões se já havia solução para o meu regresso a Díli e se já tinha conseguido falar com a nossa coordenadora, ainda me atirou com um sorriso farto de gozo e um relaxa que só vais na segunda porque ninguém incomoda a chefe a um domingo.

 

Eh pá, vocês sabem que eu sou uma jóia de moça, vocês sabem disso. Que esta coisa do mau feito tem dias em que é mais fama que proveito mas, foda-se, no meu pescoço ninguém põe o pé. Nem em Bobonaro nem em sítio nenhum do mundo, caralho. Fiquei cega. Ceguinha dos nervos, logo ali.

 

Fui directa à Igreja, esperei que a missa acabasse e pedi ao Sr. Padre que me recebesse. Lá me apresentei ao Padre Ernesto, lá lhe expliquei quem era e ao que vinha, questionando se junto das madres não haveria a possibilidade de ficar instalada nem que fosse provisoriamente até encontrar outro sítio onde dormir. Ora como o bispo de Maliana estava para Díli, fiquei com o número de telefone do padre e de lhe ligar sendo certo e seguro que quando voltasse teria sempre um quarto onde pernoitar junto das freiras [nem que fosse por uma semana, menos mau].

 

Como é óbvio toda a gente sabe da importância fulcral que a igreja católica tem nestes meios tão pequenos e por isso ter o telefone e a simpatia do padre é coisa que vale ouro por aqui. De caminho o Padre Ernesto ainda me deu boleia para o centro da cidade [abençoado homem que só para descer aquilo tudo ainda levava meia hora a pé].

 

Já no centro procurei pela casa da Cooperação Portuguesa onde costumam ficar alojados os nossos professores no sentido de tentar que algum deles me conseguísse indicar as instalações da UN Police por forma a que eu pudesse carimbar os meus papéis de entrada no distrito [uma vez que não podia voltar a Díli sem o tal carimbo]. Os professores tinham ido todos passar o fim-de-semana a Díli mas o Sr. Ernesto, quem lhes guardava a casa, depois de eu lhe ter dito ao que ia, mandou chamar o Sr. João, ex-combatente da guerrilha que falava português, para ir comigo a casa de um vizinho seu que era da UN Police e que, com toda a certeza, me iria ajudar. Lá fomos todos [sim, porque entretanto, com a curiosidade e em jeito de mega produção italiana, meia cidade veio ver o que se passava e quem eu era, a miúda a quem o padre tinha dado boleia e que vinha lá de Portugal, e continuou a seguir-nos].

 

Fui então bater à porta do vizinho do outro que era só [repito só] o chefe da UN Police de Bobonaro. Aparece-me um tipo paquistanês com um ar meio ensonado, alguma estranheza e curiosidade no olhar em jeito de mas quem é esta maluca à procura de um carimbo num papel a um domingo de manhã para se ir embora para Díli ainda hoje.

 

Conversa para aqui, conversa para ali, afinal o carimbo não era com a UN Police mas sim com os escritórios regionais da ONU e, de facto, se no papel vinha estipulado que o meu regresso seria no domingo eu deveria, efectivamente, regressar no domingo [Jura, pá. É que eu ainda nem  sequer tinha percebido isso. Ai Senhor dá-me paciência].

 

Nisto o Sr. João manda um miúdo pequeno chamar o Sr. Francisco que era só [repito só] o assistente do director da missão em Bobonaro. E a multidão ali toda em volta, sempre a chegar gente cada vez mais curiosa [que filme do caraças].

 

Aparece-me, então, o Sr. Francisco, na sua lambreta, traje de fim-de-semana [leia-se calções e camisola do clube da terra], timorense de gema e nestas lides da ONU vai para dez anos. Olha para os documentos que eu trazia na mão, olha para mim e pergunta: o que é que a senhora está aqui a fazer. Não devia estar já a caminho de Díli. Onde é que andam os seus colegas que supostamente a deviam ter recebido e levado de volta.

 

Olhe Sr. Francisco liguei agora para um e estava em casa a dormir [e é verdade, tinha ligado para coleguinha querido há meia hora que só faltou escorraçar-me ao telefone porque se tinha levantado às quatro da manhã para comer e rezar e que às onze não eram horas de ligar para ninguém porque ele estava a descansar]  e o outro [o dos Camarões] encontrei-o de manhã e acho que ia ter com umas senhoras amigas.

 

É verdade, sim. Armei-me em puta [aqueles dois caramelos estavam a pedi-las]. Coloquei um ar perdido, assustado, desamparado e de cachorro abandonado [só eu sei o quanto segurei as lágrimas e mordi os lábios no dia anterior] e não me pesa nem um pouco na consciência.

 

O Sr. Francisco desata aos gritos [vou dar cabo daqueles trastes pois que se pensam que vêm para aqui armados em “the king of the jungle” estão bem enganados comigo] e todo delico-doce pega em mim e vai de irmos directos aos escritórios da ONU aqui da zona. Claro que no meio disto tudo já eu tinha enviado uma mensagem à minha chefe [que deve ser tão "tu-cá, tu-lá" com o outro como eu devo ser loira e ter olhos azuis] a explicar-lhe a situação e a pedir orientações superiores.

 

Chegados aos escritórios [entretanto a multidão dispersou] despedi-me do Sr. João com um abraço, agradeci-lhe toda a ajuda, o velhote comoveu-se e ficámos logo ali amigos. Já no gabinete do Francisco começa a festa dos telefonemas [isto a um domingo de manhã]: colega querido é chamado, chefe da segurança é chamado, assistente do chefe da segurança é chamado, caraças pá, era gente a chegar que nunca mais acabava [e o dos Camarões só não foi chamado porque tinha o telefone desligado].

 

Nisto o Francisco fala com a minha chefe, conversa para aqui, conversa para ali, tudo a decidir o que fazer comigo porque, sim, efectivamente eu já devia estar a caminho de Díli só que tinha havido uma falha no preenchimento dos papéis por parte do meu colega [que muito provavelmente não lhe apeteceu fazer duas viagens seguidas] e agora o que é que se fazia.

 

Colega todo querido comigo [à frente do chefe da segurança] e eu, com uma vontade doida de o esganar, só lhe disse discretamente [em jeito de leva também o recado ao tipo dos Camarões s.f.f.]:

 

Sabes, mais do que uma questão cultural que todos devemos respeitar [quando as coisas não correm bem toda a gente aqui desculpa os comportamentos que tem com o facto de vir de uma cultura diferente] há uma coisa que se chama educação e respeito para com os colegas de trabalho [seja homem ou mulher] e, em relação a mim, ainda está para nascer o primeiro que me ponha a pata em cima. Entendes. Porque uma coisa é um lapso, um erro e aí tudo bem. Não preencheste os papéis que devias por desconhecimento ou porque estavas demasiado cansado para fazer duas viagens seguidas, tudo bem. Tinhas falado comigo e enquanto colegas de equipa cá tínhamos encontrado, os dois, forma de resolver esta situação com a nossa chefia. Outra coisa é tomares-me por parva, algo que não sou. Por isso, desta vez vim bater à porta do assistente do chefe regional, para a próxima meto-te as chefias de Díli ao telefone e, acredita, se te passar pela cabeça tentares a brincadeira uma terceira vez, caralho, podes ter a certeza que arranjo maneira de ligar para NY e de te pôr o Ban Ki–Moon em linha. Percebeste.

 

E mais, já te ocorreu por segundos porque é que para o distrito de Bobonaro só foram destacadas duas mulheres [no meio de um contingente de duzentos e tal homens], já. Já pensaste bem nisso. É que uma, é das Filipinas e está cá há três anos com o marido e a outra sou eu. Vim de Portugal e sou completamente avariada da cabeça, entendes. O Bin Laden ao pé de mim era um menino, caralho, um menino. Did I make myself clear ou queres que te faça um desenho. [Estava doida, senhores, doida. E devia ter um ar de maluca que só visto porque colega querido nem miou. O mais certo é daqui a uns tempos começar a sentir umas pontadas no peito e descobrir por aí uma boneca com a minha cara cravada de alfinetes, mas que se lixe].

 

É um facto que, por razões de segurança e de burocracia, só regressarei a Díli amanhã mas penso que terá ficado claro que eu não gosto de mostarda e muito menos quando a dita me chega ao nariz.

 

Fiquei também a saber pelo Francisco [com quem creio que terá havido alguma empatia] aquilo que aos poucos tenho vindo a constatar: Bobonaro é o inferno dos distritos. Para além da falta de condições, da escassez de tudo, do facto de estarmos enfiados no meio de montanhas enormes a perder de vista [hoje percebo como é que o movimento de guerrilha sobreviveu tanto tempo – quase ninguém consegue entrar ou sobreviver naquelas montanhas cerradas, é preciso conhecer muito bem], diz que nos escritórios daqui a rapaziada se entretém a fazer apostas sobre o tempo que as mulheres, que para aqui são destacadas, aguentam e permanecem. Olhei para o Francisco, sorri-lhe e disse-lhe: não aposte o seu dinheiro, corre o risco de o perder. Eu vim para ficar. Ele, olhou para mim e respondeu-me: estou a ver que sim.

 

À cautela, pessoas todas queridas, vou informar-me melhor sobre o funcionamento dos serviços postais por estas bandas. Não vá dar-se o caso de eu vir a precisar que alguém me envie daí umas vinte caixas de Xanax.




Sábado, 13 de Agosto de 2011

 

Durante seis horas de viagem [com estradas horríveis, por sinal], fiquei a saber que o meu colega de equipa é da Costa do Marfim, é muçulmano e está a cumprir escrupulosamente o Ramadão [algo que respeito, como é óbvio], acha que os timorenses são todos uns estúpidos e uns burros e que a herança indonésia [entenda-se os edifícios que ainda subsistem queimados] acaba por ser o melhor que o distrito tem. Portanto, digamos que o espírito certo para uma missão desta natureza e que seguramente terá escolhido o país a dedo.

 

Saímos de Díli ao meio-dia e chegamos a Maliana lá pelas seis da tarde, altura em que já estava vesga de fome e só com o pequeno-almoço no estômago [porque a fazer fé na inteligência do coleguinha querido se ele não come mais ninguém come, faz sentido].

 

Pelo caminho percebi que prefiro andar de burro a ser conduzida por aquele traste. Apanhei sustos atrás de sustos. E nervos. O tipo foi o caminho todo a dar na buzina. Via um cão, vai de buzinar. Uma vaca [caralho que ainda a vaca vinha lá longe], vai de buzinar. Crianças, vai de buzinar. Tudo sempre acompanhado com os melhores mimos, entre dentes, em que gente estúpida era só assim o trato mais carinhoso. [Amo esta malta, que prega a tolerância e se exprime no amor ao próximo assim, com esta coerência].

 

Valeu-me o meu querido Ipod durante todo o caminho porque não só a criatura não falava [excepção feita ao praguejar com fartura] como francamente a meio da viagem e depois de ter tentado [várias vezes] estabelecer uma conversa cordata e amena [supostamente vamos ser colegas de equipa durante 5 meses] percebi que preferia mil vezes curtir a minha música quieta, calada e muda [e não, o rádio do carro também não se liga, porque coleguinha querido não gosta].

 

Assim que chegámos à cidade de Maliana [bom, chamar cidade a uma pilha de destroços é mesmo força de expressão] e porque já devíamos estar perto do pôr-do-sol, coleguinha querido preparava-se para me deixar ali, no meio do nada, e abalar para comer e rezar. Passei-me.

 

Não meu caro, antes de ires à tua vidinha, vais fazer o enorme favor de encostar aí num sítio qualquer porque eu estou há sete horas sem comer. Entendes. Sete horas. O tempo suficiente para olhar para ti e já nem te ver direito. Acresce que eu sou uma senhora e portanto se te passa pela cabeça que me vais deixar aqui no meio do nada, estás muito enganado. Primeiro vou comer e depois tu vais fazer a gentileza de me deixares à porta de casa das pessoas que me vão acolher esta noite, antes que rebente aqui a puta da Terceira Guerra Mundial. [Eh pá e não é que uma pessoa com os nervos até fala assim um inglês todo fluente sem se engasgar].

 

Depois de comer [por favor nem perguntem. Acho que comi galinha frita com qualquer coisa parecido com arroz] lá telefonei à tal australiana, amiga de uma rapariga portuguesa [amiga de uma amiga minha] que, mesmo nunca tendo visto nem mais gorda nem mais magra, me recebeu com enorme simpatia. Coleguinha querido foi à vida dele e eu fiquei em casa da australiana.

 

Nisto telefona-me outro colega [este sim dos Camarões, também ele voluntário da ONU e em Maliana há um ano] para saber se já tinha chegado. Como a australiana não tinha preparado qualquer refeição, lá acabei por ir jantar – embora sem apetite nenhum – a casa desse colega [que divide alojamento com um tipo das Honduras, também ele voluntário] onde já estavam umas raparigas londrinas que para beber cerveja e vinho são do melhor. Dizer também que se considerarmos que a cidade só tem electricidade das seis da tarde às seis da manhã e que durante a hora do jantar a energia faltou pelo menos quatro vezes, dá para ter uma ideia exacta do que é ter luz por estas bandas.

 

Percebi também, pela conversa à mesa, que coleguinha querido não houvera tratado da papelada necessária para me levar de volta a Díli no domingo, tal como era suposto, porque o tipo dos Camarões [em jeito de gozo] só me dizia: vai por mim [que estou aqui há um ano e sou o rei desta merda toda], nem penses que voltas amanhã para Díli, na melhor das hipóteses só lá para segunda-feira. Mas deixa estar, fica tranquila que eu falo com a nossa coordenadora [como quem diz, eu e a chefe somos tu-cá tu-lá, topas].

 

Ora eu compreendo que deve ser muito aborrecido, depois de uma semana inteira de trabalho, perder-se um fim-de-semana a integrar e ajudar novos colegas [que não pediram para se deslocar aos distritos durante o fim de semana, note-se] quando na verdade o sábado e o domingo foram feitos para a farra ou para descansar [consoante o género]. Acontece que o propósito da nossa deslocação durante estes dois dias tinha por base algo muito simples: conhecer os colegas de equipa [que supostamente nos deveriam acolher e receber o melhor possível – nada que outros já não tenham feito quando também eles chegaram] e tentar, com a ajuda dos ditos colegas, encontrar sítio [hotel, pensão, quarto, casa, qualquer coisa] onde ficar aquando do regresso definitivo [duas semanas, mais coisa menos coisa].

 

Não querendo ser rude, calei-me. Quando regressei à casa da rapariga onde ia dormir levava cá uma crise de urticária em cima que nem vos conto.




 

Acordei às seis da manhã. Filho da puta do galo, pá, que se o apanho. Comecei a fazer as malas porque este é o fim-de-semana em que todos vamos conhecer os nossos distritos e correspectivas equipas de trabalho e procurar já sítio para nos instalarmos. Em princípio esta noite devo ficar em casa da amiga de uma amiga que vive com mais duas australianas.  Levo também o contacto de um primo de um amigo de um amigo que ao que parece tem por lá uma tia com casas para arrendar.

 

Oito da manhã e nada. Às nove já bufava pelo meu colega que tinha ficado de me vir buscar [acho que o tipo é dos Camarões]. Às nove e meia, comecei a telefonar-lhe e nada. Ai a minha vida. Olha-me este. Cinco minutos depois, estava a enviar-lhe uma mensagem [em jeito de vê lá mesmo se eu sou a pessoa que tu queres fazer esperar, a sério, pensa lá duas vezes]. Dez minutos depois estava à porta do hotel. Ai desculpa, desculpa, mas as estradas estão horríveis e não ouvi o telefone e desculpa.

 

O tempo o dirá, mas a primeira fotografia que lhe tirei retrata um tipo simpático e decente. O tempo o dirá. Uma coisa é certa, dos Camarões ou não, o tipo é enorme [logo também serve de guarda-costas da menina] e, ele ainda não sabe, mas vai andar comigo para todo o lado porque eu não faço a menor questão de conduzir em montanha e atravessar rios e ficar atolada em lama até ao pescoço. Aliás em bom rigor a equipa deve andar sempre junta e por isso mesmo o histerismo do agora conduzes tu, agora conduzo eu, acaba sempre por ser potenciador de conflitos. Eles não entregam a chave porque entendem que conduzem melhor, elas queixam-se de discriminação e é uma crise de nervos para a qual não há pachorra. Por mim é na boa. Só precisam de me acordar quando chegarmos. Acho que eu e colega grande dos Camarões nos vamos dar bem.

 

Coleguinha querido foi ali ao centro de Díli comprar umas coisas que lhe faziam falta e deve estar mesmo a chegar. Volto lá para domingo ao fim do dia. Se sobreviver ao choque civilizacional venho cá contar-vos o que vi por Bobonaro.

 

 

* Uma parte do caminho será feito mediante escolta da UN POL [UN Police]. Diz que é procedimento habitual, diz que tem a ver com as condições da estrada e essas coisas. Faço de conta que acredito e digo que sim, tudo bem. Que disparate, agora andarem para aí gangs armados a assaltarem e a incendiarem carros da UN, onde é que já se viu.





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